2005 - Entrevista com Jon Schaffer

"Convicção, quando aplicada a Jon Schaffer, não é uma palavra que deva ser usada levemente. Ele passou anos dando sangue, suor e lágrimas pelo Iced Earth, uma banda que se manteve firme e forte a seu som no início dos anos noventa, com todo aquele período de baixa para o metal. Movido pelo braço direito biônico de Schaffer (riffs galopantes), o Iced Earth ascendeu ao topo do underground sob direção rígida de Schaffer.

No entanto, Schaffer não é daqueles que se limita a apenas um projeto. Quando o céu se abriu e os planetas colidiram, uma união com o extraordinário vocalista do Blind Guardian, Hansi Kursch se deu em 2000, resultando no projeto chamado Demons & Wizards. Embora o disco tenha sido um sucesso, o mesmo pareceu ser mais um encontro do Iced Earth com o Blind Guardian do que um projeto singular.

Pulando para 2005, “Touched By the Crimson King”, o Segundo lançamento da banda nos apresenta um clima mais obscuro. Esse segundo disco mostra Schaffer e Hansi indo além da união de suas mentes. Músicas como “Down Where I Am” e “Seize the Day” demonstram elementos emotivos de um metal poderoso, mas não de um power metal. A marca de Schaffer está lá, seus riffs em triplets, mas reduzidos a apoiar os vocais de Hansi.

Logo após retornarem da Suécia, onde gravaram o video de “Terror Train”, Schaffer mais uma vez ser muito experiente no mundo do metal, se expressando e a apoiando suas idéias sem hesitar. Você terá dificuldades em encontrar um personagem mais inteligente e concentrado que o Schaffer no cenário do metal, mesmo que seu conhecido comportamento bruto esteja presente nessa entrevista. A seguir, o resultado dessa conversa…

Antes de tudo, como está sua saúde?

Jon: Está bem melhor. Fazendo o que eu acabei de fazer, passando 22 horas atravessando o planeta, saindo do avião, gravando o vídeo por 14 horas e depois voltar ao avião não faz muito bem para as minhas costas. Eu sofri a terceira cirurgia em Novembro do ano passado, antes de eu e o Hansi iniciarmos a gravação desse disco e acho que agora chegamos ao x da questão para me curar disso. Levou muito tempo e muita terapia física. É muito frustrante.

Eu me recordo que sua coluna voltou a te incomodar e fiquei pensando na sua coragem e força de vontade depois do lançamento do “Glorious Burden”.

Jon: Esse problema na coluna me persegue por anos a fio. Não sei se atrapalharia o nosso momento, sabe? Basicamente, fizemos a turnê pelos Estados Unidos, que é o Mercado que tem crescido mais para a banda e nós fizemos entre 60 e 70 shows. Infelizmente, tivemos que adiar os shows na Europa, na América do Sul e no Japão pelo fato do Richard Christy ter-nos deixado no meio da turnê. Se a oportunidade de abrir para uma banda tipo o Metallica surgisse, eu iria para a turnê amanhã. Não faria sentido para o Iced Earth continuar sendo a banda principal, pois seria como bater na mesma tecla. Nós precisamos ter a oportunidade de abrir para bandas maiores para que o Iced Earth cresça mais.


E quanto a festivais tipo Gigantour ou Ozzfest? Alguém entrou em contato com você?

Jon: O pessoal do Megadeth sim, mas não será nada gigante. Eu tive que pesar sobre as opções de sair em turnê e tocar para 500, talvez 1000 pessoas e isso nós já conseguimos sozinhos. Tim e eu acabamos de ter filhas, então é tipo assim: “Queremos realmente sair em turnê agora”? A minha costela ainda não está totalmente recuperada. Vale a pena piorar as coisas em uma turnê desse tipo? Iria atrapalhar o processo de composição do novo disco do Iced Earth, adiando seu lançamento. Acima disso tudo, essas turnês não são boas finaceiramente e você tem que gastar muito dinheiro. Dada a nossa experiência de tocar com o Megadeth, que foi uma perda financeira, tocamos para um mercado b. Se você olhar as vendagens do Megadeth depois daquela turnê e quanto custou tudo, vai perceber que o resultado não foi bom. Eu acredito então que em algumas noites, dos 300 fãs que estavam nos shows, metade eram fãs de Iced Earth.

Eu acho que o disco novo dá um passo além do primeiro, isto é, tem mais uma característica do Demons & Wizards do que um encontro entre Blind Guardian e Iced Earth. Alguma dessas músicas foram pensadas para o Iced Earth?

Jon: A música “Seize the Day” foi escrita durante a sessão do “Horror Show”. Eu tive a idéia toda quando estava dirigindo minha moto um dia. Eu escrevi, gravei e amei, mas sabia que nunca poderia estar em um disco do Iced Earth. Eu não escrevo especificamente músicas para um projeto, eu apenas escrevo música. As músicas em que não escrevi as melodias vocais foram as músicas em que fui co-parceiro. Tipicamente, as músicas que mando para o Hansi não possuem linhas vocais, então ele compõe a linha vocal. Isso é muito legal no nosso relacionamento. Não fiz nada diferente do que já havia feito. É que estamos nos desenvolvendo como compositores, indo passos além. Escrevemos 3 ou 4 músicas juntos, o que nunca tínhamos feito antes. Eu gostaria de fazer isso mais vezes, mas tudo se resume a problemas de agenda. É o que é e estou muito orgulhoso, mas acho que nosso próximo disco será bem melhor.

Uma coisa muito legal no disco são os climas dramáticos, obscuros. Qual foi sua inclinação metal durante o processo de gravação desse disco?

Jon: Eu diria que definitivamente há esses elementos no disco. Muito disso foi de me sentir muito cansado, para baixo e muito teve a ver com o meu problema na coluna. Um pedaço desse disco foi escrito no ano passado, mas algumas partes foram escritas antes de eu e o Hansi termos nos encontrado e uma parte foi escrita quando nos encontramos. Mesmo com as coisas indo muito bem, eu estava desgastado, após muitos anos de não ter tirado folga alguma e por ter trabalhado muito. O curioso é que quando minha filha nasceu, eu me senti completamente rejuvenescido. Eu estou mais empolgado do que nunca estive em toda minha vida. A decisão tomada foi no sentido de continuar a história do “Something Wicked” (do “Something Wicked this Way Comes” de 1998). Estamos falando de 12.000 anos de eventos humanos, sobre conspiração, terror... A história toda irá ferrar com a cabeça das pessoas quando chegar ao fim. Vai ser muito legal. Eu me sinto melhor do que nunca e o curioso é que estando na minha idade, eu me sinto melhor do que nunca por causa da minha filha.


Está complicado ensinar ao Tim a história toda e os personagens, já que é uma criação sua?

Jon: Nos encontramos pela primeira vez há algumas semanas desde que nossas filhas nasceram e eu disse a ele que é muito provável que irá acontecer e as discussões sobre o trabalho estão sendo feitas atualmente. No caminho para a Suécia na Sexta-Feira passada, a decisão tomada foi de fazer isso agora. Ele ainda não sabe disso, pois está de ferias em algum clube de golf. Por isso, não sei qual será o envolvimento dele na composição. Seria estranho dizer a ele o que está acontecendo na história. Tim não tem experiência como compositor, nunca foi dado a ele essa oportunidade e se suas composições forem boas, elas serão usadas e se não forem boas, não serão usadas. As pessoas têm essa idéia idiota que só porque alguém é músico, elas são compositoras e você irá exorcizar a banda se deixar pessoas que não sabem compor, compor. Eu não deixo as pessoas escreverem para serem legais com ele, se alguém compor algo bom, será usado. Ela terá seu crédito, sua publicidade e isso é legal. Eu sempre fui o cara que diz: “Olha, se você pensa que pode compor melhor do que eu inicie sua própria banda”. É isso o que você faz quando é um visionário, você segura os touros pelo chifre e faz tudo.

Você encontra mais possibilidades, caminhos, na voz do Tim ou na voz do Hansi?

Jon: O lance no Demons & Wizards é que o Hansi faz as melodias vocais. Eu nem mesmo penso sobre isso, pois não é minha preocupação. Se fosse eu compondo melodias aqui, seria o mesmo que o Iced Earth com um cantor diferente. Essa é a realidade. Eu tenho uma maneira de compor refrões e o jeito que eu estruturo as letras ao redor das melodias vocais. A grande diferença é que o Hansi está acostumado a compor com variações de acordes, que o guitarrista do Blind Guardian faz. Eu escrevo harmonicamente mais baixo, o que força o Hansi a compor melodias vocais diferentes das que ele está acostumado. Quando você junta as melodias vocais do Hansi com minha música, um monstro aparte é criado.

Você e o Hansi são amigos há algum tempo. Você poderia descrever a atmosfera no início dos anos 90 quando o Iced Earth e o Blind Guardian estavam começando a entrar com mais força na cena do metal?

Jon: Nós nos tornamos, instantaneamente, desde o primeiro dia, como irmãos. Era para ser. Não é algo comum e devo dizer que nunca mais aconteceu. Nós nos tornamos grandes amigos de bandas com quem já fizemos turnês, tipo o Jag Panzer, que são bons amigos, assim como o pessoal do Sentenced. Há situações como essa, mas dizer que há uma outra irmandade como a do Blind Guardian com o Iced Earth não seria verdade. Quando fizemos na Europa a turnê pela primeira vez, nós dividimos o ônibus. Aqui estamos nós, americanos indo no mesmo ônibus com pessoas de diferente idioma, experiências de vida diferentes, mas o mais legal é que o ego de todo mundo foi deixado de lado. Nunca rolou nada daquela baboseira de Rock Star. Quando tocamos em Hamburgo, as pessoas estavam gritando por Iced Earth antes de sairmos do palco. Nós estávamos em choque e eles também. E eles ficaram tipo assim: “Quem infernos está abrindo para nós”? Nós voltamos ao palco três vezes, o público estava ficando louco e eles estavam assustados. Então eles entraram no palco e fizeram muito sucesso lá em cima. Eles saíram do palco sorrindo, festejando e nós então percebemos que seria uma turnê muito forte, matadora. Nós festejávamos a noite inteira até o sol nascer todos os dias e eu o Hansi sempre éramos os últimos a ficar de pé. Eu vou te dizer cara, quando a turnê acabou e nos despedimos, todos nós choramos como menininhas. Foi uma turnê de 8 semanas onde nada deu errado. Teve alguns problemas, mas não entre as bandas. Foi o melhor momento da minha carreira até hoje. Eu era totalmente ingênuo, eu não sabia onde estava me metendo em termos de negócios, os shows foram muito bons e nada mais importava, além disso.

Você teve um grande processo no crescimento da Century Media desde que começou. Como você se sente sobre o sucesso recente da gravadora?

Jon: Eu acho que é ótimo. Eu tenho uma longa história com a Century Media, mas eu estava muito feliz em poder sair. Era tempo. Nós tivemos anos e anos de problemas, nós tivemos bons tempos, muitos momentos ruins e há algumas pessoas com quem eu me importo e algumas pessoas que não me importo a mínima. Nós fomos a primeira banda norte-americana a assinar um contrato com eles e a terceira ou quarta banda do catálogo. Quando eu assinei com eles, eu estava na casa do dono e quando terminei a primeira turnê promocional, eles estavam administrando os negócios fora de um escritório. Nós começamos juntos, nós crescemos juntos e sei que pelos nossos discos eles tiveram bastante sucesso e tudo bem, pois eles nos ajudaram a chegar onde estamos hoje. Eles poderiam ter feito um trabalho muito melhor. Eu estou muito contente com a SPV. Eles fizeram o primeiro disco do Demons & Wizards e nós amamos a forma com que fomos tratados com aquele disco. A nossa principal preocupação com eles era a distribuição dos nossos discos nos Estados Unidos e eles deixaram bem claro que iriam fazer uma melhor distribuição.

É melhor para você ser um peixe grande em um pequeno lago?

Jon: Eu acho esperto quando você está lidando com o underground e em uma situação independente. Quando você está caminhando para um maior sucesso, como nós, é melhor. Fui eu quem fez a Century Media distribuir os discos do Blind Guardian nos Estados Unidos, pois eles não davam a mínima. Eles estavam indo bem na Europa e no Japão e não estavam interessados em fazer o que se deve para tornar uma banda um sucesso nos Estados Unidos. Naquele momento, não havia esperança para o metal, e nós lideramos a batalha por mudanças.

Qual é a lição mais importante que você aprendeu estando no metal por 20 anos?

Jon: Há muitas (risos). Eu fui para escola muitas vezes e não há uma lição que eu tenha aprendido, mas uma coisa que eu vou dizer é que quanto mais você trabalhar, mais sorte você passa a ter, o que quer dizer que eu não acredito em sorte. Eu acredito em trabalho duro e que perseverança valem mais do que qualquer outra coisa. Você pode sentar e começar a culpar todo mundo pelas falhas em suas vidas e eu vejo muitas bandas fazerem isso. Se você olhar para si mesmo e enxergar a verdade feia sobre si mesmo, você aprenderá com esses erros e melhorar sempre que for derrubado. Todas as vezes que eu fui sacaneado pela Century Media, um dos donos me dizia: “Sabe Jon, sempre que te sacaneamos, você levanta e continua lutando” e eu disse: “Cara, eu não vou abandonar o barco”. Essa é a diferença entre eu e 95% das pessoas."


Traduzido por Alexandre X. Bongestab.