1996 - Entrevista com Jon Schaffer

Sheila Rene: Jon, sincronia perfeita. O CD "The Dark Saga" acabou de ficar pronto.
Jon Schaffer: Onde você está?

SR: Estou em Austin, Texas. Você escreve a maioria das letras, não?
JS: Sim, escrevo a maioria.

SR: Qual a sua guitarra favorita atualmente?
JS: Sempre a Gibson Les Paul. Sou um cara totalmente Gibson até morrer. Elas estão firmes nas posições altas e nem tem comparação com as outras. É uma guitarra pra macho.

SR: Eu estaria certa em dizer que o nome da banda veio de um gibi?
JS: Não; muitos anos atrás, nós éramos o Purgatory. Mudamos de nome porque havia muitas bandas com esse nome. Meu melhor amigo morreu num acidente de moto quando tínhamos 16 anos, e ele sempre dizia que gostava do nome Iced Earth. Eu relutei, mas acabamos mudando de nome em sua homenagem.

SR: Iced Earth (terra congelada) é certamente um assunto atual, já que muitos acham que estamos rumo á uma era do gelo novamente, por causa dos buracos na camada de ozônio. Outros citam a bíblia e prevêem que iremos acabar em chamas.
JS: Sim, é verdade.

SR: O primeiro álbum, de 1991, o de 1992 Night Of The Stormrider e o de 1995 Burnt Offerings estão disponíveis? Quero ficar por dentro.
JS: Até onde eu sei, a Century Media tem continuado a prensá-los. Já ouviu o material antigo?
SR: Não, ainda não, mas estou providenciando.

SR: Este novo projeto é um álbum conceitual baseado no seu personagem de gibis favorito, o Spawn. A pessoa real no qual o protagonista é baseado não ajudou a escrever "Depths Of Hell?"
JS: Escrevi o disco em 5 semanas. Aconteceu realmente muito rápido. Tivemos contato com os criadores do Spawn e seu elenco para fazer uma trilha sonora para o filme que eles estão fazendo. Eles também estão fazendo uma série animada adulta na HBO. Eu quis oferecer meus serviços como escritor e fazer parte daquilo. Acabamos conversando com o criador Al Simmons e uma coisa levou á outra. Acabou virando esse disco conceitual. Foi ótimo trabalhar com Simmons nas letras. Não que muitas pessoas conheçam o Spawn na Europa e Japão, mas eles nos conhecem. A mesma coisa acontece com o Spawn que é bem conhecido aqui mas não na Europa. É uma excelente promoção recíproca.

SR: Quem é Al Simmons?
JS: Ele é o melhor amigo do Todd McFarlane. A história do Spawn é uma história triste de amor, uma tragédia. Esse personagem foi assassinado pelo seu melhor amigo por ordens do governo. Ele está no limbo com sua alma vagando. Ele está em constante dor e agonia porque sente muita falta da esposa. Ele então vende sua alma para voltar ao mundo e ficar com ela. Mas ele retorna como um filho de Satan. Todo ferrado e merdas acontecem com ele a todo tempo. Ele é um cara bom numa situação horrível. A história não acabou ainda, então é muito amplo o que Todd vai fazer com ele. O que eu fiz foi dar uma pincelada geral em certos personagens e acontecimentos do gibi e dei minha própria visão do sofrimento.

SR: Aquelas vozes todas na "A Question Of Heaven" são do Barlow?
JS: Não, elas são da sobrinha do cantor. Nós colocamos a voz dela mixada 4 vezes, então ela parece um coral. É o que queríamos fazer, a idéia de Spawn e anjos no céu indo e voltando. Ficou muito bom.

SR: Eu babo por esse tipo de album... conceitual.
JS: Stormrider também foi um disco conceitual. Foi uma história que criei sobre um cara revoltado com a religião, que se volta contra ela e então ele é escolhido pelo lado mau para levar morte e destruição ao planeta. Ele não se arrepende do que faz. Acaba de um modo triste.

SR: Seria um ótimo filme.
JS: Seria legal. Se conseguíssemos ajuda do criador seria demais, mas ele não é um fã de música. Al Simmons é o cara que fez isso tudo acontecer porque ele acredita nisso e acha que é uma boa idéia. Acabamos de fazer cinco festivais na Europa e existem provavelmente 30.000 pessoas que sabem do gibi agora. Tínhamos as bandeiras e as músicas contam a história. Tínhamos todo tipo de merchandise do gibi em nossa mesa.

SR: Estou vendo 5 nomes na lista de vocês, mas na foto tem apenas 4 pessoas.
JS: Keith Menser não está mais na banda, e ele não tocou no disco, mas ele está na foto. É uma confusão. Nós temos uma história tipo a do Spinal Tap. Brent Smedly é nosso baterista, mas ele não tocou no disco. Usamos um músico de estúdio dos estúdios Morrisound. Nosso baixista anterior, Dave Bell, tocou no disco, mas está se casando e cansado de turnês. Keith entrou mas ele não trabalhava desde que começou um negócio com artes gráficas. Agora temos James MacDonough e Brent Smedley que tem tocado juntos no baixo e na bateria respectivamente por 10 anos numa banda chamada Oracle. Eles são contratados no momento, mas têm muito para se tornarem membros fixos.

SR: Você ficou surpreso pela Century Media ter deixado você participar desse projeto?
JS: Sempre foi assim. Acho que decidiram isso pra deixar o currículo maior. Não fazemos uma demo desde que pegamos um vocal novo pro Stormrider. Eles sempre confiaram na minha habilidade pra compor. Uma das coisas legais de se estar numa gravadora pequena é a confiança. Eles sabem que eu não vou fazer nada estúpido com minha carreira. Não faz sentido gastar dinheiro com uma fita demo.

SR: Com quem você trabalhou na produção no Morrissound? Aquele estúdio é o melhor da região.
JS: Jim Morris e eu produzimos o disco. Ele produziu muitas bandas. O estúdio é definitivamente o melhor e com uma equipe incrível. É bem perto da rua da minha casa, então é bem conveniente. Recebemos uma ligação do produtor Scott Burns, que não era pra ter participado no disco. Ele apareceu pra dizer que gostou muito do material e deu uma contribuiçãozinha.

SR: Você ainda está fora de Tampa?
JS: Sim, mas por pouco tempo, espero. Pensamos em mudar pra Phoenix. Eu pessoalmente amaria ir pro Colorado, perto de Denver. Eu amo o área country de lá. Não ligo pra paisagem. Prefiro estar perto da natureza.

SR: Se você gosta de climas frescos não vá pro Arizona.
JS: Estamos pensando também em Seattle, porque dividimos um ônibus com os caras do Nevermore. Eles nos disseram pra ver lá antes de formarmos uma opinião.

SR: Seattle é um ótimo lugar para se morar. Engraçado você falar de Seattle. A voz do seu cantor é bem teatral, bem no estilo Geoff Tate / Queensryche.
JS: Nunca fui pra lá. Ele tem algumas das tonalidades. Sem dúvida Tate o influenciou. Matt tem uma voz muito emocional. Ele esteve com a gente no Burnt Offerings e no The Dark Saga. Tivemos outros 3 cantores na banda. Matt é o escolhido. Tomara que ele fique com a gente por muito tempo. Assinamos quando éramos muito jovens, uns 12 anos, mas faz 6 anos e meio com a Century Media. Foi muito louco. O primeiro cantor realmente se esforçava, mas não tinha habilidade vocal. O segundo tinha, mas tinha uma atitude muito ruim --- uma mentalidade de rockstar. Não pode ser assim. O contrato de gravação nos proporcionou um nível novo de pesadelos mas não exatamente um status de rockstar.

SR: Há quanto tempo você toca guitarra? Você e Randy soam muito bem.
JS: Faz uns 14 anos. Randy e eu tocamos faz uns 12 juntos.

SR: Porque você acha que a Europa e Japão são mais fortes no metal e o Hardcore nos USA?
JS: Porque lá não tem lavagem cerebral. Nos EUA, o povo não pensa e respira por eles mesmos. Tem muita influência pelas rádios e a MTv. Elas realmente influenciam o pensamento das pessoas sobre a música. Você pode vender merda para o público americano se você promovê-la o suficiente. Se pudéssemos conseguir mais tempo nas rádios, estaríamos vendendo toneladas de discos. É uma questão de marketing e dinheiro. Na Europa e no Japão, é uma questão de talento. Se as revistas gostam de nossa banda e escrevem boas coisas sobre nós, os jovens respondem a isso. MTV é popular lá também, mas não tem nem um pouco da influência que ela tem por aqui.

SR: A MTV não tem nada que mereça ser visto. Tem muito rap e programas eróticos. Já abandonaram o que eles queriam fazer.
JS: É lixo. Definitivamente, já acabou. É uma piada.

SR: Não conheço nenhuma rádio nos EUA que toque hardrock, hardcore, heavy metal dia e noite. Você conhece alguma?
JS: Tem muito dinheiro envolvido nisso. Isso não acontece do nada. As gravadoras controlam o que acontece, sem dúvida. De vem em quando algo incrível acontece, um milagre; mas é muito raro. Se Atlantic ou Warner Bros. dizer 'gostamos dessa banda, vocês vão fazer isso e então essa merda toda vai acontecer.' E acontece.

SR: Algumas das grandes indústrias que tem grande participação nos negócios musicais... Sub Pop por exemplo, ou TVT, Wax Trax, Metal Blade, Century Media, Relapse etc.
JS: É exatamente onde isso começa. Estou falando de uma exposição exagerada á nivel nacional. É aí que o dinheiro entra em ação.

SR: Essa promoção recíproca com seu disco colocado nas lojas de gibis é uma grande idéia. É assim que as coisas podem acontecer par ao Iced Earth e esse novo disco.
JS: Tomara que sim. O metal está morto nos EUA, e poderemos talvez acendê-lo novamente com esses jovens fãs de gibis.

SR: Você está surpreso com todas essas bandas dos anos 70 e 80 voltando á ativa? Seria muito bom para o Iced Earth pegar uma carona nessa onda.
JS: Seria matador se isso acontecesse mesmo. Só o tempo vai dizer.

SR: De onde você está telefonando hoje?
JS: Estou em Los Angeles agora. Estou no escritório da gravadora fazendo algumas entrevistas. Estou indo pra San Diego amanhã para a maior convenção de gibis dos EUA. Vamos tentar vender alguns discos para os revendedores e conversar com os jovens.

SR: Isso é demais. Está a banda toda com você?
JS: Não, só eu. Vou estar em San Diego por 3 dias e então volto pra Tampa. Nós teríamos uma vaga lá, mas já estava tudo marcado para os próximos dois anos. Não sabíamos que isso seria tão forte.

SR: Essa é a graça disso, sair e se misturar com os fãs.
JS: É definitivamente o que mais tem de legal na Alemanha pra mim. Temos um público muito forte lá. Nós realmente amamos ficar com eles e ver o que está passando pela cabeça deles. Isso significa muito.

SR: Desde que coloquei meu pequeno site no ar, tenho recebido e-mails de Newfoundland, Suécia, Brasil, Alemanha e Arizona com música pesada pra eu ouvir e escrever sobre. É impressionante.
JS: Demais. Eu sei que isso é um grande negócio. Eu preciso estar na jogada, mas eu ainda não tenho muitos recursos.

SR: Alguma data para a turnê?
JS: Nós realmente queremos fazer, e estamos planejando fazer alguns shows nos EUA com o Savatage. Parece bom. Estamos fazendo a primeira turnê como atrações principais na Europa e gravaremos um disco ao vivo e um vídeo em Agosto. É hora de fazer isso.

SR: Vá para Austin, por favor.
JS: Espero que sim. Obrigado.

Entrevista por HardRadio.com.
Traduzido por
Antonio Neto e Alexandre Bongestab.