2006 - Entrevista com Jon Schaffer

Jon Schaffer foi entrevistado recentemente pela revista BW&BK e essa entrevista aparece na nova edição da revista, número 101, lançada a poucos dias. Nessa entrevista Jon nos dá detalhes dos novos álbuns do Iced Earth, problemas com Ernie Carletti, DVD "Alive In Athens" e muito mais. Confiram nossa tradução exclusiva para a Brazil Under Ice:

“Eu entendo como as pessoas pensam, muitas vezes sem argumentos, que eu sou um completo idiota. Há pessoas que me odeiam e odeiam a banda. Eu nunca conseguirei mudar isso. Eu disse algumas coisas no passado que machucou o sentimento das pessoas, mas desde que a minha filha nasceu eu tenho uma nova perspectiva na vida. É uma viagem, e isso me afetou muito, mudando meu jeito de olhar e pensar para as coisas. Eu fiquei mais sensível com tudo. O “The Glorious Burden” foi um desses discos que abre portas para as pessoas e que muita gente me alfinetou. Alguns jornalistas europeus o tornaram político. Com o jornalista canadense eu levei para algo muito pessoal. Foi somente essa pessoa e mais ninguém na revista teve a ver com isso. Foi um exagero da minha parte. Eu achei que do jeito que o cara fez não foi legal (Jon fala aqui sobre uma entrevista que fez para a BW&BK a alguns anos, onde culminou numa série de boatos, brigas e hostilidades pelas duas partes envolvidas) e eu continuo pensando assim, mas eu também acho que eu exagerei, não apenas durante a entrevista, mas também depois dela. Eu não teria feito isso há dois anos, mas como eu disse, estou enxergando as coisas de modo diferente.”

Com certeza você não está acreditando ao ver o Iced Earth de novo na revista. Os cínicos e os que odeiam o Jon Schaffer (ele sabe que vocês existem) irão dizer: “Jon não tem o cacife de ficar puto com um poderoso veículo de comunicação norte americano e isso é apenas para mudar um pouco as últimas más notícias em torno da banda”. Verdade seja dita, eu tenho um ótimo relacionamento com Jon Schaffer, passado mais de quinze anos desde que o entrevistei. Eu tenho o número da casa dele no meu celular e tenho o seu e-mail pessoal, então, periodicamente eu o contacto. Esse papo foi marcado antes dos problemas com Ernie Carletti terem iniciado, antes da adição de Tim Mills (guitarra) e a volta de Brent Smedley (bateria) a banda, apenas para ter uma idéia sobre o disco duplo agendado para 2007. Nesse meio tempo, houve o fiasco do DVD “Alive in Athens”, assim como os problemas legais.

“Pessoalmente, eu não estou preocupado que a história com o Ernie possa atingir o Iced Earth”, diz Jon Schaffer. “Eu não acho que isso poderia afetar atualmente. Seria mais sério se ele tivesse gravado algum disco com a banda ou se estivesse em turnê com a banda. Durante esse tempo, você fica próximo de alguém e depois a gente fica arrasado, pois é a mesma coisa como se fosse um membro da sua família sendo preso. Eu passei uma semana com ele e várias horas no telefone. Ele não contribuiu para o processo de composição, então a ausência dele, temporária ou definitiva, não irá mudar nada. A única coisa que ele me disse ao telefone, logo que foi efetivado como membro, é que estava aprendendo as músicas antigas. Eu disse a ele que era admirável da parte dele, mas eu ainda não sei qual vai ser o set-list da nova turnê. O nosso catálogo está ficando enorme. Se você quer contribuir para esse disco, me mande material. Esqueça aprender as músicas antigas e vá trabalhar em coisas novas. Eu expliquei a ele no que eu estava trabalhando, qual é a história. Se eu gostar do que você me mandar, o crédito será seu, assim como a publicidade e créditos (dinheiro). Tudo será muito bom. Essa foi à última conversa que tive com ele, mas nunca recebi nada dele”.

“No final das contas, teremos que continuar tocando o barco. Se as acusações forem falsas, ele vai estar na banda. Se ele for inocente, eu irei estar ao lado dele. Ele terá o emprego dele de volta. Se for um longo processo, arrastado, eu não posso parar o Iced Earth, mesmo sendo ele inocente ou culpado. Temos que encontrar alguém para gravar o disco e fazer a turnê. Há muitas pessoas por aí. Eu tinha três caras marcados para um teste depois do Ernie. A gente tinha conversado um pouco pelo telefone, então depois que ele esteve aqui eu tive uma sensação tão boa que eu cancelei os outros três testes. Bernie Rico (guitarras BC RICH) falou tão bem dele na ocasião e está muito chocado, pois ele o conhece muito melhor do que eu conhecia. Eu odeio ver a mídia crucificar as pessoas. Muitas pessoas vêem as coisas na televisão, no jornal e se acham na posição da lei de defender ou condenar as pessoas. Eu não falei com o Ernie desde as acusações. Acredito eu que terei notícias quando ele for solto. Eu espero que ele tenha uma explicação”.

Quanto ao lançamento do DVD “Alive in Athens”, Jon já se posicionou negativamente e adiciona: “A razão pela qual eu estava contra é porque iremos fazer um dvd de verdade. Algo que as pessoas tem esperado desde sempre. A gente não podia fazer por merdas contratuais. Eu não filmei um dvd da turnê do “The Glorious Burden”, pois os direitos ainda pertenciam a Century Media. A única coisa que a gente tinha a condição de lançar (não recebendo por isto) seria lançar apenas algumas músicas do “The Glorious Burden”, que não é suficiente para lançar um dvd no mercado. Agora eu tenho o direito sobre todo o catálogo da banda, que era algo que eu estava esperando muito. Eu gostaria muito de ter feito algum dvd antes. Seria perfeito ter um show europeu da turnê do “Horror Show”. A gente não tinha nenhuma banda de abertura, a gente tocava por umas 3 horas, era um palco legal, com três sets diferentes, mas a Century Media não investia o dinheiro necessário, o que dificulta muito o trabalho de uma banda, pois você não pode fazer sozinho. Os planos que tenho, nos últimos três anos é que para o próximo disco teremos um dvd com aquela produção que o Iced Earth merece”.

“Eles sabem que iremos fazer isso, então eles estão tentando ganhar alguma grana antes disso. Eu tive sentimento contrários quanto ao DVD. Por exemplo, se eu assistisse a um trailer de um possível dvd de um show de bandas que sou muito fã, como Iron Maiden e Judas Priest, em uma era a qual eu goste muito, seria muito legal ser lançado, mesmo sendo um pouco cru. Acho que algumas pessoas irão gostar muito. O Matt estava lá, um dos melhores vocalistas que já passou pelo metal. Isso será ótimo para muitos fãs, mas o que me deixa doido é que poderia ter sido muito melhor, com um pouco mais de esforço e com mais dinheiro investido”.

Isso é tudo sobre o passado, então iremos discutir sobre o conceito do novo disco, centrado no personagem Set, primeiramente introduzido no “Something Wicked this Way Comes”. “Será feito em duas partes”, explica o guitarrista, “separados mais ou menos entre seis ou oito meses. Isso por causa do enorme trabalho de mixagem do material todo. A gente gostaria de ter a parte 1 completa antes de começar a mixar a segunda. A gravadora também prefere dessa forma. Nós estamos falando sobre mais ou menos 2 horas de música. Eles nunca iriam permitir isso no meu contrato (lançar tudo isso em apenas uma parte). Eu quero gastar o tempo que for possível para fazer perfeito. Por isso era crucial escrever tudo de uma vez, ao invés de escrever a segunda parte três anos depois da primeira parte”.

Schaffer admite que ainda esteja compondo, mas eu tenho mais ou menos 60% do material pronto. Novas idéias irão surgir enquanto faço o disco. Isso sempre acontece. A minha meta é iniciar a bateria em Dezembro, descansar no natal e depois do Reveillón, detonar de vez, acabar tudo e faltar apenas à mixagem da segunda parte. Tudo depende de quando a SPV irá liberar o lançamento. Eles querem lançar a primeira parte no próximo verão (americano) e a segunda na primavera (americana) de 2008. Antes do verão, a gente queria lançar um EP que não vai ter nada a ver com os dois discos e depois tocar em festivais para preparar as pessoas para o disco novo. O Tim terá a oportunidade de escrever letras que não terão muito a ver com o conceito da história. “Ele tem estado ocupado com o Beyond Fear, mas ele está bem animado com tudo.”

“Muito disso tem a ver com orçamento”, diz Schaffer a respeito das datas oficiais de lançamento. “Eu adoraria ter uma orquestra de 100 músicos. Para “Gettysburg”, tivemos uma orquestra de 55 músicos, que foi muito bom. Eu acho que para ter o tamanho e impacto que tenho em mente, precisamos do dobro de músicos, mais violinos, violas e baixos. O lance é que apenas a “Gettysburg” foi muito cara. Se você adicionar o tempo de orquestra, dos 32 minutos de música, 20 tem a orquestra e gastamos em torno de 40 mil dólares para fazer isso. E isso apenas com 50% a menos músicos que eu tinha em mente. Teríamos muitos problemas para fazer nos dois discos tudo o que eu queria fazer. Estou positivo que iremos fazer as grandes partes, introduções e partes que serão expostas às orquestras”.

As gravações serão feitas na propriedade do Jon. “O teto é grande o suficiente e as paredes são redondas. Não há paredes normais. Nós testamos à sala. O Jim Morris levou o material para o studio dele, escutou e disse que vai dar tudo certo. Iremos fazer tudo aqui, menos à mixagem. Será mais tranquilo. Muitas vezes abro a porta e vejo renas e veados correndo na rua.”

Falando sobre a estória, mas não dando muitos detalhes, ele disse: “É a coisa mais desafiadora. É uma história massiva para ser editada. Para contar a história, é preciso de uma narrativa, para torná-la pessoal e apaixonante. Contar a história em dois discos será impossível. Eu conseguirei contar muito, mas não da forma que eu gostaria. Todas as partes principais estão feitas há muito tempo. Eu nunca escrevi um livro. Eu gostaria de encontrar um autor de ficção-científica que faria isso. Não é meu ramo. Eu sou um compositor. A trilogia “Something Wicked” foi um aperitivo, assim dizendo. Começando com “Prophecy”, você está passando por 10.000 de história. O Set nasce em “Birth of the Wicked” e “The Coming Curse” cobre os próximos 2000 anos, quando ele está no mundo fazendo seu trabalho. Conversando com os fãs, descobri que eles tem uma idéia diferente da que eu tinha em mente, pois eles não tinham todas as informações. Nos últimos oito anos (eu escrevi tudo em 1997), eu cresci tanto como pessoa como compositor também, então será um pouco diferente da trilogia “Something Wicked”, mas terá melodias parecidas sim. É isso o que irá juntar as partes. Você irá escutar algumas parte semelhantes em alguns locais. Alguns personagens tem certas melodias, então você escutará algumas coisas que o fará lembrar de outras”.

“Algumas músicas estão quase prontas, outras nem tanto. Estou as editando, decidindo quais são as partes mais importantes para contar a estória. Algumas são necessárias, outras são muito detalhadas e eu preciso editar tudo isso. Eu estou nomeando as músicas por temas. Minha estória é mais sobre ficção científica, com toques de horror, teoria da conspiração. É uma loucura. Há tantas coisas históricas no meio que você pode pirar e pensar “espero que isso não seja real”. É divertido. Eu não sei de onde veio a idéia, apenas aconteceu. Jim Morris é um grande fã de ficção-científica. Quando estamos gravando um disco, ele geralmente lê de seis a sete livros por mês. Ao longo dos anos eu dei a ele algumas partes da história e ele tem estado louco para gravar tudo isso. A única coisa de ficção-científica que eu leio é: “Guerra nas Estrelas – Universo Expandido”.

“Estamos fazendo alguns experimentos” é uma novidade sobre a sonoridade da banda. “Coisas que nunca fizemos antes, como instrumentos mundiais, melodias diferentes,  elementos de étnicas diferentes e idéias de padrões de bateria de todo o mundo. Como estou trabalhando na demo, estou usando esse programa “Ethno-Instrument”. Sons fantásticos de todas as regiões do mundo. A idéia é montar as partes e fazer o máximo possível ao vivo tendo o Bobby Jarzombek ou outro baterista, percusionista, músicos de diferentes calibres. Bobby pesquisou muito sobre baterias africanas e me mandou um disco com batidas diferentes usadas em rituais africanos, coisas de dance e de canibalismo, que são muito loucas. Ele conseguiu traduzir isso para a bateria normal. Haverá nesse disco coisas que bateristas amam, pelos padrões diferenciados. Tudo no que toca atmosfera”.

Tendo tal épico em mãos, o livreto do cd irá ajudar a contar a estória, partes em que as letras sozinhas não irão ajudar. “Eu estou me sentindo como um artista, passeando pela estória”, diz Schaffer, discutindo seu novo talento. “Eu conheci alguns caras em um local de fazer tatoagem, que irão criar as capas. O Travis Smith ainda estará envolvido, colorindo e montando tudo, mas esses caras tem as melhores pinturas do Set que eu já vi até hoje. Eu fiz uma cirurgia recente para melhorar de sinusite e antes de sofrer essa cirurgia, eu estava no médico e não conseguia remover meus brincos. Eles são do tamanho normal e os coloquei na turnê do “The Glorious Burden”, só que não me lembrava como tirá-los. Eu fui nesse local de tatuagem e lá tem um dos caras que é doente pelo Iced Earth (poster do “Alive in Athens” na parede) e ele me ajudou a remove-los e começamos a conversar. O dono e seu sócio queriam participar do processo de fazer a arte do disco. Geralmente eu uso alguém do outro lado do mundo, mas esses caras estão muito perto de mim. Eles não terão todos os aspectos lendo as letras (você não deve ler como sendo um livro de verdade), então as figuras do encarte irão parecer como uma revistinha em quadrinhos, que aos poucos irão mostrando o que está acontecendo. Qualquer que seja a letra na outra página, a figura irá falar sobre a letra e mais algumas coisas. A primeira parte lida sobre a profecia, a invasão humana e os primeiros 10.000 anos. A segunda parte é o Set e o que ele irá aprontar. Terá coisas melódicas e bombásticas, enquanto a segunda parte será mais escura e pesada, tipo a “The Coming Curse”. A vibração se dará durante toda a parte final”.

Traduzido por Alexandre Bongestab / Johnny Z.