2008 - Entrevista com Jon Schaffer
Fonte: Metal Rules
Tradução por Rodrigo Batata.

Demorou muito a me convencer a ficar acordado até as duas da manhã, por causa de um trabalho noturno, ainda mais para fazer uma entrevista, mas a oportunidade de falar com Jon Schaffer, o cérebro por trás do Iced Earth, de qualquer modo, não é necessário apresentá-lo mais a fundo. Falando com Schaffer em Fort Worth, Texas, após o segundo show da banda na segunda perna da turnê de divulgação da obra conceitual "Something Wicked" dividido em duas partes "Framing Armageddon" e "The Crucible of Man", o guitarrista respondeu tudo diretamente, como de hábito e não fugiu de nenhuma resposta, apesar do adiantado da hora.

Com as duas partes de Something Wicked causando um verdadeiro rebuliço e a volta de Matt Barlow no lugar do demitido Tim "Ripper" Owens em dezembro de 2007, causando um rebuliço maior ainda, houve bastante assunto para discutirmos, No entanto, Jon também nos forneceu bastante informação sobre a 'gibi' centrado em Set Abominae (personagem central da Saga Something Wicked), como ele divide o seu tempo entre ser pai e música e também sobre outros projetos dentro do mundo do Iced Earth.

A grande noticia obviamente é a volta de Matt Barlow para a banda e a demissão de Tim Owens. Todos parecem estar felizes sobre isso.


Jon Schaffer: Sim e obviamente todo mundo tem a sua opinião, e para mim, sem pensar na discussão Tim x Matt, ambos são realmente grandes vocalistas. Eu acho que as pessoas realmente pensam muita bobagem a respeito disso, mas de uma perspectiva espiritual, é realmente ótimo ter Matt de volta a banda. É uma sensação muito boa no palco, mas eu realmente apreciei o trabalho que Tim e eu fizemos juntos e eu não estou tentando ser politicamente correto ou coisa parecida. Estou muito, muito orgulhoso do "The Glorious Burden" e do "Framing Armageddon". Acho que são álbuns realmente fantásticos.

Eu sei que você e Matt são uma família, mas como você agiu para tê-lo de volta na banda? Ele que foi atrás ou foi você?

Jon Schaffer: Quando estivemos juntos depois que ele saiu da banda, e geralmente era por algum compromisso da família, nós não falávamos sobre música, mas quando eu ouvi sobre o seu projeto ao lado do Pyramaze, que foi basicamente feito por e-mail, mais ou menos como eu e Hansi (Kursh, vocalista do Blind Guardian e do Demons & Wizards) fazemos no Demons & Wizards, isso era um projeto que ele estava fazendo e isso me fez pensar se ele estava sentindo falta de fazer música, então eu liguei para ele e disse: "Então cara, você está sentindo falta? Percebeu o erro?", ele respondeu algo como: "Você sabe, sim, estou sentindo falta disso." Na primeira vez, falamos sobre fazer um projeto juntos, mas a mudança (de vocalista) iria acontecer, independente da volta do Matt ou não. Mas provavelmente isso iria ocorrer apenas depois do lançamento de "The Crucible Of Man", pois já estávamos no meio do trabalho desse álbum. Se não fosse pelo desejo do Matt voltar a banda, a saga do Something Wicked teria sido concluída pelo Tim e depois disso teríamos uma mudança. Estava claro para mim que a cabeça do Tim estava na sua carreira solo e que o Iced Earth era apenas um emprego que pagava o seu salário e foi como sentir que ele não estava passando emoções verdadeiras ao vivo e isso é realmente inaceitável.

Qualquer um que tenha passado pela banda nesses anos, teve que acreditar verdadeiramente nela e teve que dar tudo de si no palco e sempre teve que ter essa coisa meio espiritual acontecendo, e senti que isso era inexiste da parte dele. Nem no estúdio ele tinha isso, mas no estúdio você acaba entendendo, pois é um ambiente diferente, muito controlado, é um jeito diferente. Você tem várias chances para fazer a coisa funcionar. É uma energia diferente, acontece de uma uma outra maneira. Sobre isso, do ponto de vista técnico, o cara mais incrível com quem eu já trabalhei. Do ponto de vista técnico, algumas pessoas acham a voz do Matt melhor, outras acham o Tim melhor, algumas acham o John Greely melhor e outras acham o Hansi melhor, enfim, cada um tem sua opinião. Do ponto de vista técnico, eu digo que não tivemos nenhum problema com o Tim. Tudo que eu pedi para ele fazer, ele fez tudo que era humanamente possível. Eu, como compositor e também produtor Jim Morris e eu éramos como crianças em uma confeitaria. Foi algo do tipo "Porra cara. Tudo que nós pedirmos esse cara pode fazer". Então novamente, tudo se resume a uma coisa espiritual que estava faltando e eu senti que isso era bastante claro que a cabeça do Tim estava indo para um caminho diferente (da banda) e tive que mudar isso. Isso não era aceitável.

Então foi assim que ele saiu, e eu e Tim falamos sobre isso. Não foi como se ele fosse um aproveitador barato. Todo o resto foi apenas papo furado da mídia e eu não vou entrar nessa discussão de merda porque isso realmente não interessa. Quem me conhece sabe porque ele saiu, todo mundo na nossa organização sabe, Tim nunca soube, essa é a forma como ela é e nós discutimos isso muitas vezes. Mas mesmo assim, quando Matt e eu falávamos, a principio, nós conversamos sobre fazer um projeto paralelo, mas em seguida, tornou-se evidente, após discutir essas possibilidades que ele iria conseguir fazer um bom número de turnês e que iríamos conseguir fazer isso como Iced Earth e é assim que deve ser. Não era como uma conspiração que vinha sendo planejada a muito tempo. Literalmente falávamos sobre isso e em uns dois dias foi tomada a decisão, da forma como tudo aconteceu no fim. Parecia a hora certa e a coisa certa a fazer. Mas como eu disse, uma mudança estava a caminho de qualquer forma.

Você ficou surpreso quando Matt aceitou voltar para a banda?

Jon Schaffer: Não realmente. Claro que não fiquei pressionando. Não foi assim que as coisas aconteceram, como eu disse, nós começamos falando sobre fazer um projeto paralelo, pois não podíamos fazer nenhuma gravação. Não importa qual seja a sua carreira, você sempre consegue colocar mais alguma coisa no seu tempo. Eu não estava pressionando o Matt para ele voltar, e se ele não tivesse voltado, de qualquer forma o Iced Earth continuaria, teria que continuar. Eu não fiquei surpreso. Não foi algo do tipo telefonar e falar "Ei cara, você vai voltar para o Iced Earth?" Isso começou como uma conversa sobre a possibilidade de fazermos um projeto juntos e as coisas evoluíram a partir dai. Eu não liguei para ele com a intenção de chamá-lo de volta ao Iced Earth. Era obvio que ele estava sentindo falta da musica e achei que seria legal fazermos algo juntos novamente. Não foi uma surpresa pra mim e isso tem sido legal de qualquer maneira.

Obviamente, Matt e Tim são vocalistas, cada um da sua maneira, mas você fez alguns vocais no álbum novo na faixa "A Gift or A Course". Fazia bastante tempo que você não fazia o vocal principal de uma música, então, primeiro, por que você não faz mais vocais e segundo, por que aquela canção em particular se encaixa melhor na sua voz do que na do Matt?

Jon Schaffer: O Matt canta também. Ele faz as harmonias baixas. A minha voz é muito limitada se comparado com o que eu escrevo ou o que eu escuto na minha cabeça. Eu nunca vou alcançar as oitavas que Matt ou o Tim alcançam, ou qualquer um dos vocalistas que eu trabalhei nesse tempo, com exceção do primeiro álbum (com os vocais de Gene Adam). John Greely tinha um alcance fantástico, Hansi tem um alcance fantástico e o mesmo acontece com o Tim e com o Matt.

Provavelmente eu tenho duas oitavas, enquanto esses caras tem quatro ou cinco. Eu sempre tive nos meus pensamentos, que se eu tivesse que fazer os vocais do Iced Earth isso limitaria o Iced Earth e limitaria o que eu tenho em minha cabeça. Para ser o vocalista principal do Iced Earth é necessário que se tenha um alcance de várias oitavas, porque esse é o tipo de musica que eu escrevo. Eu consigo fazer vários estilos de vocal, coisas mais raivozas, como em "Stormrider" ou coisas mais melódicas, como em "A Gift or A Curse", ou mesmo o vocal da versão de "God Of Thunder", são vocais bem diferentes, mas não são vocais que exigem uma voz muito potente. Eu só não construo esse caminho vocalmente (quando estou compondo). Sempre ouço essas coisas quando estou compondo. E uma grande parte do som, então, qualquer vocalista que tome parte no Iced Earth, tem que fazer isso. Ele tem que ser capaz de fazer isso, é uma exigência.

Do ponto de vista de composição, eu farei músicas de vez em quando, mas mesmo as músicas que estão fora do meu alcance vocal, as letras são minhas, os vocais são meus, as melodias vocais, as cadências, eu mostro para os vocalistas essas partes. Não é como eu colocar uma folha com as letras na frente deles e falar "Aqui, faça algo com isso." Não funciona dessa maneira. É tudo muito planejado, eu estabeleço a cadência das sílabas, é muito detalhado. Agora, os vocalistas tem escrito algumas letras. Matt fez em algumas e Tim fez a letra de "Red Baron/Blue Max" para o "The Glorious Burden". Obviamente, com as suas letras, eles vão fazendo as melodias e as cadências, e eu e Jim fazemos alguns ajustes quando necessário. O que eu faço em uma demo quando eu estou compondo algum material, muitas vezes eu faço a parte vocal para o vocalista acompanhar, ou mesmo que seja algo fora do meu alcance, eu canto em um tom mais baixo ou toco na guitarra, no tom certo para que eles possam se guiar. Então nós começamos a testar estilos no estúdio até achar o que eu estou procurando, testamos algo com o estilo do Geoff Taten, do Halford, do Dickinson, do Dio. Esses são os quatro que costumamos usar. Isso é apenas para exemplificar, de modo que o cantor saiba que é essa atmosfera que eu estou procurando. Não significa que eu quero que soe como Dio. Significa apenas que é o estilo de voz com o estilo de emoção que eu estou procurando. Quero que ele (o cantor) encontre. É uma forma de nos comunicarmos. Esse é o tipo de voz e emoção que eu quero que você encontre. Então o cantor já sabe "Ok, eu sei o que o Jon quer e vou nesse estilo", mas ele ainda vai soar como ele próprio.

Eu entendi que as músicas do "Framing Armageddon" e do "The Crucible of Man" foram escritas e gravadas em sua maioria ao mesmo tempo e apenas alguns detalhes foram adicionados depois na finalização do "The Crucible of Man". Porque você escolheu lançar os álbuns separadamente e não lançá-los ao mesmo tempo, como um cd duplo?

Jon Schaffer: Era muita musica para fazermos isso. A gravadora jamais deixaria isso acontecer. Seria o lançamento de outro álbum completo. Não é como colocar 10 ou 15 minutos além dos 74 minutos que se consegue colocar em um CD. É uma considerável quantia a mais; é um CD completo a mais. Isso nunca foi uma opção para a SPV. Eles não iriam fazer isso.

Se fosse uma opção, você preferia tê-los lançado simultaneamente?

Jon Schaffer: Eu não sei. Eu realmente nunca pensei nisso. Não sei (pausa). Hoje, eu pensaria que não. Eu não vejo benefícios em fazer isso atualmente.

Acho que isso é uma maneira de dar aos fãs uma prévia do que esperar para o próximo ano quando sair a conclusão.

Jon Schaffer: Claro, você sabe, a coisa fica no ar. Isso foi planejado por anos. deveria ter acontecido depois do "Something Wicked This Way Comes". A trilogia que encerra aquele álbum era supostamente uma introdução. Mas depois eu decidi não renovar nosso contrato com a Century Media. E porque o Horror Show foi o nosso último álbum com a Century Media, eu decidi deixar isso para depois. A história foi concebida para ser um épico em duas partes. Eu comecei a caçar instrumentos diferentes pelo mundo à muito tempo. Isso tudo tem estado na minha cabeça por anos e esse era o plano. Depois que saímos da Century Media e assinamos com a SPV, tivemos os acontecimento de 11 de Setembro e aquilo realmente me marcou. Eu não estava com cabeça para encarar os acontecimentos do "Something Wicked" e não queria que esses fossem os dois primeiros álbuns que faríamos com uma gravadora que ainda não havíamos trabalhado. Eu queria lançar um álbum e ver como as coisas estavam indo. Nós negociamos isso no acordo original. Foi algo como "Olhem, se tudo estiver OK e estivermos felizes em como as coisas estiverem se desenrolando, nós vamos fazer as duas partes." Eles concordaram e eu fiquei feliz como as coisas aconteceram, mas eles passaram por sérios problemas financeiros, então eu não sei o que o futuro guarda para a SPV. Eles não estão passando por um bom período, como várias gravadoras estão passando também. As coisas não estão boas para eles.

Isso é muito ruim.

Jon Schaffer: Atualmente estamos bem. Nosso contrato esta valendo. Mas temos alguma coisa no ar. Primeiro estamos conversando sobre o lançamento desse box set. Originalmente, eu iria colocar quatro faixas extras, pequenas introduções, que eu intencionalmente deixei fora do "Crucible of Man" porque achei que o álbum fluiria melhor assim, mas com a mudança de vocalista, a continuidade se perdeu de qualquer maneira. Se formos lançar esse box e Matt for regravar o "Framing Armageddon", então irei adicionar estas e outras faixas e isso vai fazer com que o conjunto flua melhor porque eu sinto que no "The Crucible of Man" nós apenas colocamos as musicas e deixamos o segmento de lado, e deixamos isso para ser mais direto e não como uma narrativa em pedaços. Agora eu não sei se isso vai acontecer por causa do estado financeiro da SPV. É uma coisa chata, pois eu teria colocado essas canções mas eu achei que iríamos ter esse box e foi-me dito que definitivamente teríamos o box. Teríamos um DVD mostrando o Making Of do "The Crucible of Man" e até mesmo algumas coisas das sessões do "Framing Armaegddon", algo do processo de composição. Teríamos também algumas coisas ao vivo gravadas nos festivais de verão. Seria um pacote bem legal. Agora todas essas coisas estão indo para o buraco. Basicamente, do ponto de vista contratual, nós terminamos com a SPV. Mesmo que o DVD saia, ainda está no ar se ele sairá pela SPV ou não. As coisas estão confusas nesse momento. Uma gravadora não é problema para o Iced Earth. Tem algumas por ai que assinariam com a gente, mas eu me sinto mal por eles. Eles estão lutando realmente.

Essa questão é mais voltada para o pessoal da mídia. Quando os promos do "Framing Armageddon" foram disponibilizados, eles vieram com "voiceo vers" nas faixas, para proteger contra cópias, mas o "The Crucible of Man" não. Você tem alguma idéia do porque?

Jon Schaffer: Não, mas eu fiquei puto por ter que fazer essas merdas de voice overs. Eles me chamaram quando estavam masterizando, a mixagem estava pronta e o meu produtor veio e disse, "Você vai ter que fazer isso. Isso tem que ser feito ou vamos perder em vendas." Eles foram inflexíveis quanto a isso. Eles falaram que se eu não fizesse isso, alguém da gravadora faria. Seria uma estupidez alguém que não tem nada com a banda vir e fazer o voice over, e eu fui em frente e fiz isso. Não sei se eles ouviram muita merda por ter feito isso que eles decidiram simplesmente não fazer ou se viram que era uma batalha que não podiam vencer, então foda-se. O problema é que logo que os promos são enviados, eles vazam, porque tem pessoas na mídia que você não pode confiar, francamente, e eles vão colocar isso na internet. É como as coisas estão acontecendo. Chegará uma hora onde teremos que levar os caras da media para um lugar para fazer uma audição. Não sei porque eles não fazem isso ainda. Só sei que dessa vez ninguém me pediu para fazer isso, então nós mandamos sem mesmo. Afinal, não é algo que eu gostaria de fazer mesmo. Eu sei que muitos dos nossos críticos não ficam felizes quando pegam um promo e dizem que os voice overs deixam a gravação inaudível e essa é outra coisa. Muitas pessoas ficam putas porque elas não conseguem a merda delas de graça. Tem muitos jornalistas nessa categoria, acredite em mim. Eu tenho conhecido eles pelos 20 anos que eu venho fazendo isso.

Eu li algo sobre você estar cogitando iniciar uma história em quadrinhos com o Set Abominae. Tem alguma verdade nisso?

Jon Schaffer: Absolutamente! Isso vai acontecer, não há duvidas sobre isso! Um dos meus próximos projetos, é fazer uma "revista-demo" para o pessoal responsável pelas editoras. Vou levar uma revista com 12 ou 15 páginas, com partes especificas da história e o pessoal responsável pela arte que eu pretendo usar e vamos tentar vender isso para diferentes editoras, como a Vertigo, DC, Marvel, Image, qualquer uma, e ver que tipo de acordo nós conseguimos. Também existe a possibilidade de não precisarmos fazer essa "demo". Meu empresário está trabalhando nisso atualmente e eu tenho alguns contatos com o estúdio McFarlene. Nós poderemos utilizar as imagens que foram usadas no Something Wicked I e II na demo, porque será feita pela mesma equipe que fez a arte dos dois. Eu tenho vários planos para isso, porque isso pode ir mais longe do que vai na música e do que o Iced Earth tem feito. Ele tem potencial para ir bem longe.

Você mencionou as capas e o Iced Earth sempre foi conhecido pela brilhante e surpreendente arte nas capas dos cds e nos livretos. As pessoas que você teve fazendo as artes no "Framing Armageddon" e "The Crucible Of Man" fizeram um trabalho realmente fantástico!

Jon Schaffer: Absolutamente sim, é um time fantástico. Atualmente são três caras. Dois caras trabalhando e são donos de um estúdio de tatuagens em Columbus, Indiana, David Newman-Stump e Nathan Perry, que fizeram os desenhos. Felipe Machado Franco é o cara que fez todas as cores, que coloriu os desenhos, então esse é um típico trabalho de revista em quadrinho, normalmente dois ou três caras, um que faz os desenhos, outro que pinta e outro que digitaliza e faz o trabalho no computador. O que é realmente legal é ter esses caras morando em Columbus, que é a 30 minutos de onde eu moro. Eu os tenho encontrado várias vezes por causa disso, desenhando storyboards e tudo mais, é realmente fantástico. Eles trabalham muito bem juntos. Eles tem feito muita coisa desde que começamos a trabalhar juntos na capa dos álbuns. Eles fizeram umas tatuagens em mim. Eles são espetaculares.

Você está fazendo muita propaganda deles!

Jon Schaffer: Claro, absolutamente! Eu tenho a capa do "The Crucible of Man" tatuada no meu ante-braço desde antes do lançamento do "Framing Armageddon"! Esse foi um dos primeiros desenhos que eles fizeram e eu isso que ele seria a capa da segunda parte, então nós a deixamos separada. mas era exatamente isso que eu queria para a segunda parte. Primeiro nós tínhamos apenas a imagem do Set, então eu disse, "Caras, eu queria fazer como se o set estivesse explodindo a Terra," então o Felipe foi e fez isso. Ele fez um grande trabalho. Ele pegou uma foto da Terra que foi tirada pelo Hubble e fez essa coisa fantástica.

Obviamente você e o resto da banda estão em turnê agora, mas eu estava pensando se vocês tem algum plano para fazer um show completo com os dois álbuns sendo tocados na integra, contando a história toda?

Jon Schaffer: Sim, isso pode acontecer. Depende se os fãs vão querer ver isso acontecer. Tem uma discussão, mas isso é uma coisa que ainda vai demorar um ano mais ou menos. Você nunca sabe se um álbum vai se tornar um clássico e eu penso que colocar isso tudo junto seria um trabalho infernal e seria necessário muito dinheiro, então temos que ter certeza que as pessoas querem ver isso. Atualmente estamos em contato com nossos fãs e devemos resolver isso em breve. Outra coisa é que estamos promovendo um disco novo, mas como ele é muito novo não é a melhor decisão tocar muita coisa dele ao vivo. Você tem que dar tempo para as pessoas se acostumarem com isso, então nós estamos tocando apenas duas músicas do "The Crucible of Man" e umas três do "Framing Armageddon". Fica cada vez mais difícil quando você tem uma discografia de vinte anos. São muitos álbuns. Temos muitas que são favoritas dos fãs e muito material. Muitos me perguntam porque não tocamos nada do "Burnt Offerings". A verdade é que o "Burnt Offerings" foi o nosso álbum que menos vendeu, de longe o pior, ele vendeu dez por cento do que os outros álbuns venderam. Eu tenho que fazer um set list baseado no que as pessoas gostam. Uma coisa que dizem, "Bem, o álbum não foi bem promovido e bla bla bla." Mas nenhum dos nossos álbuns realmente foi bem promovido. Se um álbum ganha vida, ele vai continuar vendendo através dos anos, sem necessitar de uma maior atenção. Até o primeiro álbum vendeu mais do que o "Burnt Offerings". O "Night Of The Stormrider" vendeu quinze vezes mais do que ele nos últimos vinte anos. Nós nos focamos nos álbuns que realmente estão vendendo. Eu sei que tem pessoas que querem ouvir "Dante's Inferno" e outras coisas. Talvez algum dia nós façamos isso, mas vai ficando cada vez mais difícil, porque nossa discografia está ficando muito grande. Foi uma resposta grande, mas a questão é, se vamos fazer alguma coisa com as partes I e II, precisamos ter certeza de que os fãs querem ver isso ao vivo. Faremos o possível para fazer isso de uma forma espetacular.

Eu vi o set list de um show da semana passada em Tempa no Arizona e enquanto ele é focado na história do Something Wicked, mas tem alguns clássicos como "Pure Evil" misturados com elas. Esse set list é fixo ou você estão mudando ele durante a turnê?

Jon Schaffer: Está fechado momento. Nós fizemos algumas mudanças. Durante a primeira perna, algumas músicas não estavam indo muito bem. "Come What May" é boa mas temos muita coisa nova. E ela é muito cama para tocar ao vivo. Muitas pessoas ficaram desapontadas por termos tirado-a do set, mas você sabe, é uma situação onde estávamos colocando muita coisa nova. Eu assisti um show do AC-DC em Indianápolis e foi um show fantástico, mas eu fiquei desapontado porque eles tocaram muitas coisas novas. Tocaram seis ou sete músicas depois de "For Those About to Rock", eu amo esse álbum e tudo que eles fizeram antes dele, eles podiam tocar apenas isso a noite toda. Nós mudamos um pouco o set list, mas eu sinto que agora nós estamos no caminho certo e estamos onde devíamos estar.

Vocês estarão em Vancouver na quarta-feira e eu estou realmente curioso em ouvir o Matt cantando as músicas do Tim. Ele hesitou em cantar essas musicas ao vivo?

Jon Schaffer: Não. Por um motivo elas são músicas do Iced Earth, não músicas do Tim Owens. Eu as escrevi. No passado Matt cantou várias músicas que não haviam sido gravadas por ele. É uma exigência. Não funciona de outra maneira. O Iced Earth não é uma banda que gira em torno de um vocalista, ela gira em torno das músicas. Todas as pessoas pensam que eu sou um maluco egocêntrico e todo gira em torno de mim. Mas não é assim que funciona. Sim, eu sou a força motriz. E eu estou ciente disso. O Iced Earth é um veiculo para as minhas musicas e qualquer que seja o vocalista ele tem que ser capaz de cantar qualquer música do Iced Earth. É assim que as coisas funcionam. Então, nós não vamos negar um álbum especifico por que um vocalista não quer cantar. Matt não é assim de qualquer forma, ele compreende isso completamente, ele não estava nos dois primeiros discos e sempre cantou músicas desses discos. É assim que funciona.

Quando você estiver em Vancouver, você irá fazer um evento especial da Scrape Records, que é uma das maiores lojas de metal independente na costa oeste. É o décimo primeiro aniversário deles e o Iced Earth é o headliner do show, mas antes disso haverá uma tarde de autógrafos antes do show, que deve contar com muitos fãs. Você está fazendo uma série de coisas desse tipo nessa turnê, ou esse é um evento isolado?

Jon Schaffer: É um evento isolado. Nós fizemos isso no passado, mas com os ingressos VIP que estamos fazendo agora, se tivéssemos que fazer as sessões se autógrafo, teríamos muita coisa a fazer, porque essas sessões levam o dia todo quase então preferimos fazer os ingressos VIP. Para mim, quando meu empresário me disse sobre a situação da Scrape, eu senti que devíamos ajudar esses caras. Ser uma loja de metal independente e ainda conseguir sobreviver é um milagre! Eu não sou um desses caras que está maravilhado com a industria musical hoje em dia, do jeito que as pessoas estão roubando as musicas por todos os lados. Isso já acabou com vários vendedores, gravadoras, artistas, então por esses caras que estão ali lutando, eu vou lá lutar com eles.

É muito legal da parte de vocês fazer algo assim. Sei que que o dono da Scrape vai gostar bastante disso e os fãs locais também vão.

Jon Schaffer: O Iced Earth é para os fãs. Eu sei de tudo que falam de mim por ai. Eu sou uma pessoa que fala tudo, brutalmente honesto, o que deixa as pessoas meio loucas, mas quando se resume a esse tipo de coisa e mesmo nos dias normais, se eu tiver tempo, eu vou parar e conversar com os fãs. As pessoas não precisam ter qualquer tipo de medo de vir falar comigo, desde que nós não estivermos correndo para o aeroporto, estivermos sendo chamados para o ônibus ou atrasados para fazer nosso próximo show, eu vou parar por um tempo, autografar o material das pessoas e conversar com elas. O resto da banda é assim também. Atualmente é algo em que eu insisto. Nós estamos aqui por causa dessas pessoas que afortunadamente se conectaram com as nossas músicas, acreditam na nossa banda e são eles que estão nos dando a oportunidade de fazer isso, então nós precisamos respeitá-las. Então, eu quero dizer que ir nessa loja de discos seria ótimo. Em Tampa, tínhamos uma loja chamada Aces Records. Eu não sei mais de nenhuma, então eu acho que é uma coisa muito especial, então se nós pudermos ajudá-los, estaremos felizes em fazer isso.

Já se fazem dez anos desde que conversamos pessoalmente com você sobre o Iced Earth, isso foi quando o "Something Wicked This Way Comes"  foi lançado, ironicamente foi o nosso Editor Chefe que fez a entrevista com você. Durante aquela entrevista você disse "Quando eu comecei a banda, meu objetivo era ser tão grande como o Iron Maiden e o Metallica e nós não vamos parar até alcançar isso." Você continua com essa visão nesse seu estágio da vida?

Jon Schaffer: (Risos) Sim, eu era jovem. A questão é, ninguém vai conseguir alcançar isso. Nós vivemos em um mundo diferente hoje em dia. Eu não posso dizer isso para qualquer banda, mas para uma banda de metal é muito difícil que isso aconteça. Eu não consigo ver isso acontecendo. Não acredito que o Iron Maiden conseguiria fazer hoje em dia o que eles fizeram nos anos 80, mesmo que eles ainda fossem os fodões do pedaço. Ser capaz de tocar em cada arena das maiores cidades da América é algo que não acontece mais. Por mais ingênuo e ambicioso que eu seja, não. Eu acredito que somos realmente sortudos de termos o sucesso que nós temos. Quando você olha para uma banda como o Iced Earth, que vende cerca de 200 mil cópias no ano de lançamento, independente de quem está na banda e o que está acontecendo, e continua vendendo ao longo dos anos. Se você comparar os dias de hoje com os downloads e tudo mais, o que 200 mil cópias representam hoje é muito diferente do que representava no inicio dos anos 80. Acredito que continuamos muito bem vistos. Algum dia nós estaremos no nível que o Iron Maiden esteve e ainda está? Eu não sei, em alguns paises nós somos. O engraçado é que quando minha filha nasceu, isso realmente mudou minha perspectiva de vida. Eu era muito impulsivo e não enxergava as coisas. Eu nunca havia parado para perceber o que eu havia feito, era sempre "tenho que ir e fazer tudo acontecer". Eu nunca diminuía o ritmo. Lá no começo, quando eu sai de casa com 16 anos, vivendo nas ruas e fazendo todo tipo de merda, .que me trouxe até aqui. Eu precisei do nascimento da minha filha para conseguir colocar as coisas em uma perspectiva que eu nunca tinha feito antes. Então essa ambição que me guiava, eu ainda tenho ambição, mas é muito diferente agora. É focada em um caminho diferente. Hoje a banda é muito importante, mas minha filha é minha preocupação principal mas antes a banda era minha principal preocupação. A preocupação com a banda continua sendo alta, mas essas coisas mudam você. Creio que isso me fez ser capaz de apreciar o que eu fui capaz de criar até agora. Nesse momento, queria ser capaz de ter a lealdade e o amor das pessoas que ajudaram com isso, sei que tem muitos que me odeiam por ai, mas também há um grande número de pessoas que entendem o que eu sou e entendem o que é essa banda. Nós não somos como muitas bandas por ai. Tem um número significativo de pessoas que ouvem minhas músicas, e é assim que sempre foi. Eu nunca quis ser um deus da guitarra, um rock star ou qualquer merda dessas. É tudo sobre as músicas e os fãs entendem isso. Muitas pessoas não, mas os fãs do Iced Earth entendem.

Jon, tenho duas perguntas para terminarmos o assunto. Você planeja gravar uma continuação para o álbum de covers, "Tribute To The Gods"?

Jon Schaffer: Não tenho nada planejado para o futuro, mas você sabe, pode acontecer.

Você tem a sua loja em Indiana, a Spirit of 76. Quais as chances de um fã ir até lá e encontrá-lo pessoalmente? Você gasta algum tempo lá?

Jon Schaffer: Atualmente, nós estamos apenas vendendo pela internet e correios. Nós a fechamos faz um ano e meio. Ela só abria aos fins de semana e estava ficando cada vez mais difícil. Mas quando eu a abri, no primeiro ano as pessoas me encontravam lá constantemente. Era um sonho meu. No começo consegui levar isso junto com a banda, mas depois as coisas na banda começaram a ficar mais corridas e eu tive que contratar uma pessoa para tomar conta da loja, o cara era honesto e conhecia história, mas ele não era um grande vendedor, teve o nascimento da minha filha também, o que tornava mais difícil ainda para eu e minha esposa em manter a loja, a banda e a família. Eu guardei todos os displays e todo o material decorativo, coloquei em um depósito e um dia desses eu vou reabrir a loja, quando eu estiver pronto para me aposentar da música. A loja foi um pouco mais do que eu pude aguentar. Fazer isso pela internet é uma coisa diferente. Realmente, ter uma loja extra exige um comprometimento com o trabalho que eu não dispunha naquele momento.

O que nós podemos esperar do Iced Earth para 2009? Teremos mais turnês de divulgação desse álbum ou apenas essa?

Jon Schaffer: Bem, nós estaremos ocupados. Nós vamos fazer uma turnê européia em fevereiro, um mês sendo co-headliners com o Saxon, e depois disso faremos alguns festivais de verão pela Europa. Podemos fazer alguma coisa na América do Norte, tenho certeza que faremos algo entre os festivais, e você nunca sabe, as vezes pode aparecer alguma turnê para abrir para alguém, talvez possamos entrar em algo. Eu amaria fazer algo com o Judas Priest de novo. Tivemos um período fantástico com eles na Europa. Sei que eles gostaram de nos ter como banda de abertura porque fomos muito profissionais e fáceis de lidar em todos os quesitos. Tivemos um período realmente incrível, os fãs adoraram o conjunto das duas bandas, existe um potencial para que algo aconteça novamente. Vamos nos manter ocupados. Estou atualmente trabalhando em um outro projeto mas ele esta em modo "projeto secreto". Vou trabalhar nele entre dezembro e janeiro, então tem muita coisa vindo.

Jon, deixe algumas palavras para os nossos leitores e fãs do Iced Earth.

Jon Schaffer: Bem cara, eu sei que vai parecer velho isso que eu vou dizer, mas eu sempre termino do mesmo jeito, eu apenas gostaria de dizer muito obrigado para todos os fãs que estão com a gente por todos esses anos e para os novos fãs que chegaram recentemente. A lealdade de vocês é algo muito especial. Prometo que independente de qualquer coisa, enquanto eu for capaz, eu farei o meu melhor para entregar o melhor produto que nós pudermos fazer, a melhor música, o melhor metal. Isso vem do fundo do meu coração e alma. E estou comprometido com isso.