2008 - Entrevista com Jon Schaffer
Fonte:
OnTrackMagazine
Tradução por Antonio Neto e Cris McBrain

Cara, o novo CD é absolutamente impressionante. Definitivamente acho que é um dos melhores discos até agora. Havia muitos fãs céticos imaginando se ter o Matthew Barlow de volta seria bom ou ruim, e eu me incluo nisso. Mas há muita paixão nesse disco; não tem como negar. Dito isso, eu também era um dos que acreditaram que o Tim Ripper Owens deveria ter cantado nesse segundo disco; entretanto, sendo honesto, conhecendo a Parte 1, comparado com o trabalho do Ripper no "The Glorious Burden" e baseado na performance de Matt no disco novo, agora queria que a parte 1 fosse feita com ele também. Entendeu a confusão?

Jon Schaffer: Não, não, acontece que, é muito provável que você ouça o Matt cantando a Parte 1, porque esse box foi planejada desde que contratei com a SPV. Tudo isso foi planejado. Planejamos lançar um box que teria a saga inteira em um pacote. Assim, faz sentido o Matt cantar a Parte 1, para termos a continuidade devida. E mais, eu deixei algumas passagens introdutórias de fora, há umas 4 passagens faltando na parte 2. Achei que fluía melhor sem elas. Mas quando a coisa toda é ouvida como uma só, vai fazer sentido de novo. Há muitas opiniões sobre tudo isso mas eu não dou a mínima. Quando dizem algumas coisas, para mim, opiniões são como cus. Todos tem um e a maioria fede, e o que eu sei é que do ponto de vista da composição e produção, faço o melhor trabalho possível, e se isso atende às minhas rigorosas exigências, fico satisfeito. Sou definitivamente meu pior crítico.

Certo. Entendo completamente. Mas do ponto de vista de um fã, ficamos divididos, pois queremos aceitar a amar o que você faz não importa como, mas cada um tem seu gosto. E então você fica pensando, "Bem, talvez teria sido melhor se isto fosse...", então, para mim, é um pouco frustrante.

Jon Schaffer: Acontece que, para os fãs é diferente, mas para mim, eu sou o autor disso tudo, então quando as pessoas me dizem coisas como essa, eu penso "Bem, é interessante, mas não entendo". Eu vejo as coisas de um jeito diferente de vocês. Para mim, a voz é outro instrumento na mixagem, e desde que as melodias, cadências e a atmosfera que eu quero para a música são satisfeitas, tudo funciona, e os dois caras são cantores competentes, impressionantes.
Como eu disse, eu ouço de modo diferente, e acho que há muitas pessoas que se animam com algumas coisas e dizem merda; ouço coisas como: "Jon compôs para a voz do Matt", eu não componho para a voz de ninguém. Eu componho uma música e o cantor tem que ser capaz de cantá-la apropriadamente, porque é pra isso que ele é pago. Não é assim que funciona. Não conheço nenhum compositor que escreva uma música para a voz de um cantor. Você tem que saber do que eles são capazes e não pode compor algo em um tom que não vai soar bem. Ás vezes você tem que fazer um ajuste, mas isso não muda a música. É uma questão de adaptar a melodia. Mas quando você trabalha com caras desse calibre, não é preciso fazer isso. Esses dois podem fazer qualquer coisa humanamente possível com suas vozes. É como passear no parque para mim como compositor, e do ponto de vista da produção, para produtores como Jim e eu, é ótimo trabalhar com esse tipo de talento. Gosto dos dois discos. Amo o trabalho que Tim e eu fizemos juntos. Mas ainda assim, o espírito do Iced Earth como uma banda ao vivo tinha algo faltando. Eu não me liguei durante a turnê do "The Glorious Burden" com o que estava acontecendo ao vivo, porque eu estava tendo dores terríveis nas costas, mas quando nós estávamos em turnê na Europa no outono passado em 2007, estava ficando visível pra mim que havia algo errado. Pela primeira vez na história da banda, e eu digo mesmo em relação a antes da entrada do Matt, eu senti que havia algo errado no palco. Havia algum problema com a química acontecendo e foi isso que ocasionou as mudanças. Não teve nada a ver com eu me desapontar com a capacidade do Tim nas gravações. Foi mais uma coisa espiritual mesmo. Acho que os fãs sentiram isso, porque eu não acho que o Tim estava acreditando muito em tudo. Acho que ele estava no Iced Earth por causa do pagamento e acho que ele estava mais concentrado em fazer algo próprio. Era bem aparente em suas ações na verdade, não se envolver nas coisas, ter oportunidade de compor e não aproveitar, coisas assim. Isso diz muito sobre a dedicação de alguém. Você não engana os fãs, cara. Você não consegue. Se você ir por aí sem acreditar no que faz, eles vão saber. Vão perceber facilmente. Ou pelo menos a maioria vai. E eu acho que realmente o que levou a tudo isso. O ponto é que haveria mudanças de qualquer maneira. Depois do "The Crucible of Man", haveria mudanças. Essas coisas acontecem, o destino tem suas jogadas, depois eu ouvi sobre o Matt com o Pyramaze, e então eu chamei ele e disse "Ei cara, sentindo falta daquilo?" e ele disse "É". Primeiramente, estávamos falando em fazer um projeto paralelo juntos. Não entrou na minha cabeça com ele sendo um policial, e com uma criança nova e tudo mais, aceitando voltar ao Iced Earth. Mas depois de meia hora conversando, ficou claro que ele estava interessado, e eu disse "Bem, você sabe, poderia ser bem legal, e talvez seja a hora" e ele também sentiu isso. Então fizemos. Foi bem sem planejamento, totalmente sem planejamento. Mas como eu disse, as mudanças estavam vindo de qualquer maneira.

Em relação á saída de Ripper da banda, houve um pouco de hostilidade com você pelo modo como tudo aconteceu. Como você se sente sobre isso? Você acha que poderia ter sido de uma maneira melhor?

Jon Schaffer: Não, porque despedir alguém nunca é fácil. Acho que tem muitas coisas não contadas sobre como as coisas aconteceram, e não vou entrar nesse assunto. Mas posso te dizer que não tenho que ficar me explicando pra ninguém. A banda é minha, o negócio é meu, e há uma razão pra tudo o que faço. As pessoas tem que entender que quando alguém é demitido, e tenho certeza de que muitas pessoas já foram demitidas, ou conhecem quem já foi, é sempre culpa do chefe, é sempre culpa de outra pessoa, é muito raro uma pessoa que assume a responsabilidade de seus atos. Mas olha só, faz mesmo diferença ter sido duas semanas antes do natal, ou três semanas, o que seja? Seria ruim em qualquer época do ano. Pra mim, eu teria sido um idiota falso se tivesse tudo planejado e tivesse esperado pelas festas de fim de ano, fingindo estar tudo certo. É besteira. Não faço as coisas assim. Sou bem direto, se decisões foram tomadas, todos sabem. Tinha que ser assim. Eu não queria complicar as coisas. Na verdade, ter pena das pessoas só vai te pressionar por mais tempo ainda. Eu vi o Tim na Itália quando fizemos um festival lá, ele estava lá com o Yngwie Malmsteen, e durante um dos solos de dez minutos do Yngwie nós conversamos ao lado do palco e ele estava sendo amigável. Agora, eu ouvi muitas coisas que foram ditas. Mas cara, isso são coisas que as pessoas fazem. Não importa. Sério, no fim das contas, é uma questão de experiência. Tim precisa mesmo é descobrir o que ele vai fazer com a carreira dele. Se ele quer fazer algo próprio, ele tem a oportunidade. Ele tem um nome por causa do Judas Priest e do Iced Earth e tem a oportunidade de mostrar do que ele é feito. Queria que existisse um jeito fácil de demitir as pessoas, mas não existe. E houve muitas coisas nos bastidores que eu não vou revirar que acabaram resultando no que aconteceu. Não vou ficar com intrigas e lavando roupa suja, mas posso dizer que tem um "outro lado da história".

Essa próxima coisa que vou dizer, não leve a mal. Não quero ofender e nem irritar ninguém. Mas quanto ao "Ripper", você sempre se refere a ele como Tim. Sim, ele tem o nome "Ripper" e assim parece que se tornou uma entidade própria. Quando você pensa, "o Ripper com o Iced Earth", era como uma coisa separada. O que se fala pela internet é que você não gostava muito que ele usasse esse nome, "Ripper". Imaginei que você achou que ele estava tentando fazer disso uma coisa própria, e se você sentiu que ele não era parte da banda por causa disso.

Jon Schaffer: Tim tem medo de que ninguém o conheça se ele não usar isso. Eu dizia "Olha, isso foi um nome criado pelos produtores do Judas Priest. É uma coisa muito brega." Uma coisa seria se isso tivesse acontecido antes de entrar pra banda, mas pra mim, ele se apegar a isso com se fosse a única coisa que tivesse, era um sinal de desespero e realmente muito desnecessário. Eu acho brega. Imagine se fosse Matt "The Mangy Red-Headed Crazy Guy" Barlow (NT: ruivo louco nojento). Eu acho esses nomes bregas e não quero isso no Iced Earth. Achei que o Tim tivesse tido uma chance para reconstruir sua imagem. Mas quando ele não era reconhecido nos aeroportos e em outros lugares comigo, aquilo ferrava com seu ego. E coisas assim aconteciam, e pareceu que depois de um tempo, ele estava desesperado para se agarrar nisso. Mas enfim. É uma escolha dele. Eu não usaria uma imagem criada por um produtor do Judas Priest, eu não deixaria isso definir minha carreira. Eu faria meu talento definir minha carreira, é o que eu acho.

Certo, entendo completamente. Isso explica muitas coisas e coloca numa perspectiva melhor do que a que eu tinha, então eu agradeço por isso. De um modo geral, é revigorante ter alguém com um período na banda quase comparado ao seu, de volta na banda. Você concorda? É como se houvesse uma química. Antes, com os outros membros, você basicamente era o Iced Earth. Agora com Matt de volta, tem alguém que passou por muitos apertos com você.

Jon Schaffer: Bem, vamos ver. Me sinto bem com isso, e com certeza há muitas pessoas contentes com isso. Já ouvi os dois tipos de reações. Eu não guio minha carreira baseado nesse tipo de coisa. Estamos falando de música, de arte. Sempre segui em frente sem me preocupar com quem está na banda e quem manda nisso. É assim que funciona. É muito bom ter Matt de volta... em vários aspectos. Pessoalmente, é legal porque somos muito amigos e é algo sincero. É amor sincero. Um se importa com o outro. Antigamente, andávamos sempre juntos, mesmo quando estávamos fora de turnês. Nós não ficávamos sem nos ver só porque não estávamos sem fazer alguma turnê. Estaríamos juntos no dia seguinte e iríamos ao cinema, esse tipo de coisa. Claro que isso não acontece agora, porque estamos morando longe. Há lados diferentes em nossa relação. Tem o lado da amizade, da família, e o dos negócios. A banda é o lado dos negócios. Nele, fizemos muitas coisas ótimas. É muito fácil trabalhar com o Matt, ele acredita na banda, confia nas minhas opiniões, confia nas minhas idéias para a banda e nas minhas composições e ele se entrega de coração assim como fazia no passado. A fase do "The Glorious Burden" foi difícil, pois Matt havia passado por uma grande mudança e apesar de termos tentado fazer a coisa acontecer, não funcionou, e eu estava diante de uma decisão difícil, lanço um disco que é o melhor disco, o mais caprichado que já compus, lanço e me arrependo como aconteceu com o "Burnt Offerings"? Ou eu paro tudo no meio e encontro uma solução? Percebi que o Matt estava na banda por lealdade e educação, mas não porque queria, e isso ficou muito claro quando Jim e eu estávamos gravando com ele. Não estava indo bem. Apesar de Jim poder fazer tudo dar certo na mixagem, terminamos o primeiro disco, e quando estávamos para começar o "Gettysburg", eu pensei: "Não posso fazer isso. Não vou fazer isso. Pare a produção. Eu vou falar com o Matt. Vou acabar com isso e vou resolver a situação”. Então, tivemos nossos altos e baixos. Quando Matt entrou na banda pela primeira vez, na época do "Burnt Offerings", era uma época difícil, por muitas razões. Foi a única época da história do Iced Earth em que eu queria enterrar minha cabeça no chão em pleno palco. Era para fazermos uma turnê como atração principal junto com o Rage depois dos shows de verão, com o Running Wild como principal, então, não estávamos prontos, cara. Fizemos quatro shows e eu disse "Chega, vamos embora. Cabeças vão rolar." Fizemos mudanças, e então as coisas voltaram aos eixos. Então voltamos pra Europa com o "The Dark Saga" e conseguimos nosso respeito de volta. Então aconteceu muita coisa. Matt esteve comigo por muitos anos, nas turnês, ajudou com letras muito legais, e ele é uma parte grande da minha vida, então estou feliz com a volta dele.

Muito legal. Agora sobre o disco atual. Sobre o conceito, há bastante complexidade na linha do tempo do enredo e eu acho que não captei tudo. Na verdade, eu posso ter entendido bem errado. Pode nos dar um resumo de tudo?

Jon Schaffer: Na verdade não. Não tem como fazer isso rapidamente. É muito profundo, é muito complexo. Mas a premissa básica é de que a humanidade é uma raça alienígena ao planeta Terra. A Terra original era habitada por um grupo chamado Setianos. Eles parecem humanos, mas não são. São muito evoluídos, muito mais do que nós. Eles são na verdade descendentes diretos de Deus, ou do arquiteto do universo, e eles têm poder e sabedoria. Eles não possuem armas, são evoluídos demais pra isso, mas conhecem matemática, além de qualquer conhecimento humano. O conselho de anciões domina a habilidade de viagem no tempo e esse tipo de coisa. É atrás dessa força e sabedoria que a humanidade vêm até a Terra. É disso que fala a música “Prophecy” na trilogia original. A trilogia original envolvia três períodos particulares da história, que se passa durante 12 mil anos. “Prophecy” é o que vai acontecer quando a humanidade vier à Terra. Então vai para “Birth of the Wicked”, que é 10,000 anos depois, é por isso que tem um relógio lá. Então Set nasce. “The Coming Curse” é o que ele fez em 2000 anos no planeta.Agora temos uma aprofundada muito maior na história. Na abertura de "Framing Armageddon", temos “Something Wicked (part 1)” que relembra a “Prophecy” e fala, "a humanidade está vindo, estamos vendo isso acontecer, nós aceitamos isso, vamos escolher os 10 mil de nossa espécie , pessoas especiais que merecem nossa lealdade", eles não escolheram qualquer um. Essas pessoas foram escolhidas para se esconderem. Quando os humanos aparecem e exterminam todo mundo, e descobrem que o conselho dos anciãos não possui o conhecimento que eles procuram, eles matam o conselho. A arte do disco, as letras, os efeitos sonoros ajudam a contar a história, mas você tem que entender tudo isso, e entender quando eu digo o que está acontecendo. É bem difícil contar em forma de música. É muito difícil. Mas então o exército de dez mil foi escolhido para fugir e se esconder, fugindo de sua cidade, onde os humanos estavam chegando. Esconderam-se nas montanhas enquanto seus entes e familiares eram massacrados e assassinados, e então esperaram pelos dias de Ofuscamento. O "ofuscamento" é um período onde a terra passa por vários eventos cataclísmicos, o (deserto do) Saaara cobre todas as evidências da invasão humana na Terra; todo o aparato espacial e tecnológico fica enterrado na areia. Os humanos acordam e não se lembram de nada do que aconteceu, assim como o pulso magnético do planeta, há um pulso explosivo de plasma do céu. Eles acordam, não sabem de onde vieram, por que estão aqui, eles não sabem de nada. Não conseguem nem se comunicar entre si, falar, ao menos que sejam da mesma raça. Isso é parte da história de fundo, que conta da galáxia de onde os homens vieram, porque vieram e porque existem diferentes raças, há muito mais coisas, mas não vamos entrar nisso agora. Sobre o ofuscamento; os homens acordam e voltam ao seu estágio inicial de sobrevivência; alimentação, vestimenta, abrigo. Só conseguem existir e sobreviver. Nesse momento, os setianos tomam a forma os homens, que é onde entra a “Infiltrate and Assimilate”, eles se infiltraram, e agora vão liderar os homens. Os humanos começam a se espalhar pelo planeta e é assim que as diferentes sociedades e culturas nascem. Assim, o tempo todo, os setianos são responsáveis por tudo e eles criam a “Ordem da Rosa”, que é uma sociedade filantrópica que aparentemente parece fazer bem à humanidade, mas por trás, foram eles quem criaram as religiões do nosso planeta. São eles que manipulam todas as guerras que acontecem, e seguido disso, há a “Domino Decree”, que fala do efeito dominó, "se conseguirmos fazer esses acontecimentos dessa maneira, vamos acabar com o jogo", que é o fim da humanidade. Basicamente, o “Framing Armageddon” cobre os primeiros 10,000 anos e depois vem o “The Crucible of Man” que começa com o nascimento de Set. Então, essa parte da história, considerando o “Framing Armageddon”, é como uma narrativa às vezes. Tem pontos de vista pessoais, como quando é o general que comanda a invasão humana. É ele que comanda o coro em “Motivation of Man”, você tem os soldados marchando e saindo de suas naves, e as explosões, aquela coisa toda. Então você tem a perspectiva de alguns personagens chave. Mas para a maior parte, é a narração da história por períodos grandes de tempo. Mas no “The Crucible of Man"”, começa com o nascimento de Set e então fala sobre os Seguidores do Vigia em "Minions Of The Watch", que são os que cuidarão dele e que uma hora ou outra, irão revelar a ele quem ele é, e sua função no planeta. Primeiramente, ele reluta em aceitar isso. Ele descobre isso aos 13 anos de idade, que é o que conta "A Gift or a Curse". Foi por isso que fizemos os vocais do jeito que fizemos. Foi a primeira vez que eu cantei assim em um disco. Eu quis fazer soar como se Set estivesse conversando consigo mesmo, então é como se sua mente consciente e seu sub consciente estivessem revezando. Matt faz as linhas finais e então eu e ele cantamos juntos nos versos principais. É uma voz bem diferente de tudo que eu já fiz no Iced Earth, mas é legal. Trouxe uma nova textura à musica. Mas enfim, coisas assim estão acontecendo. Set nasce 6 meses antes de Jesus Cristo, mas ele é muito importante, pois eles sabem que precisam de uma religião mais poderosa para fazer as coisas acontecerem. Então, eles vêm com essa idéia de Cristo, esse messias, o cristianismo; eles criam isso, e Set manipula Cristo o tempo todo. É ele também quem aparece e enfia o arpão do destino em Cristo lateralmente quando ele está crucificado. E se você ouvir a música “Crucify the King”, é do ponto de vista de Set, falando com Cristo, dizendo coisas como "olhe para você, homenzinho patético", jogando na cara, com seu uniforme romano, esse tipo de coisa. Set pode estar em qualquer lugar e em qualquer tempo. Ele é como uma força da natureza. Ele tem DNA humano, mas ele é a encarnação de um milhão de almas que foram massacradas, e alguns dos sumo sacerdotes dos conselhos anciões encarnaram nele também. É um evento astrológico que acontece e faz com que todos os outros eventos se unam, e através de seus julgamentos e sofrimento, ele aprende tudo. Sobre o processo de transformação que acontece, temos um seguimento chamado “Injecting the Venom” (Injetando o Veneno), que vai estar no box e que mostra basicamente como Set muda de uma criança de 13 anos para o príncipe coroado. De qualquer maneira, cara, é muito profundo. Poderíamos falar disso por horas. Não sei como explicar tudo rapidamente, e se tiver um jeito, não conheço.

(risos), Bem, você acaba de me mostrar um mundo novo. É bem mais do que eu tinha imaginado. Isso é legal, cara. Você juntou várias coisas. Estou intrigado.

Jon Schaffer: Eles manipulam a humanidade inteira. Essa sociedade secreta, A Ordem da Rosa ("Order Of The Rose"), é a maior força do mundo. Tudo aquilo na Gerra Fria, no universo Something Wicked, foi planejado pelos setianos. É tudo parte do plano, tudo isso está no Decreto Dominó ("Domino Decree"), cada evento,  desde Jesus Cristo até Kennedy, tudo o que fizermos terá um resultado específico. O única pontinha de esperança para a humanidade nessa porcaria toda é a música “Come What May”. É onde a coisa acaba. A história não acaba aí, mas lança a questão: Se a humanidade se organizar, podem ter uma chance, não necessariamente vencendo os setianos, mas evoluindo como uma raça que merece existir". Essa é a premissa. A humanidade, nós basicamente fizemos inúmeros avanços tecnológicos, especialmente nos últimos 100 anos, fizemos coisas incríveis. Tudo por desejo dos setianos também, no universo Something Wicked (risos). Mas na verdade, meu ponto de vista é: a humanidade, apesar de toda essas coisas, continua sendo os mesmos idiotas que sempre foram nos últimos trocentos anos, e no universo Something Wicked, estamos aqui há 12 mil anos. A natureza da humanidade não evoluiu. “Come What May” é a música que diz que se a humanidade realmente começar a ser honesta consigo mesma, então existe uma chance de a espécie evoluir. Mas terá que ser uma decisão de múltiplos indivíduos, de fazer o que é certo, e isto é: ser honesto, e realmente cumprir isso, porque a maioria das pessoas não são. É bem mais fácil mentir. É muito mais fácil se olhar no espelho e dizer "Estou ficando muito gordo, mas não é minha culpa que eu coma porcarias o dia todo." ou "se eu fui demitido, foi por culpa do meu chefe", ou "se tem um problema em meu relacionamento, é culpa da outra pessoa, e não minha!" Esse é o problema com a humanidade, estamos ferrados. Não assumimos a responsabilidade por nossos atos. A maioria das pessoas é assim. Essa é minha opinião pessoal, mas eu acho que se existe um caminho para a salvação, é a honestidade. É o único jeito de chegarmos lá. Não estou dizendo que "Se você não acreditar em mim você vai queimar no inferno", acho isso besteira. Acho que para o espírito humano realmente crescer, temos de ser responsáveis, é basicamente isso. Há muito sobre minha visão da vida e do mundo, e meu amor pela história, tudo isso está amarrado nessa história e de um jeito bem sombrio, divertido e legal de se bagunçar a história mundial.

Definitivamente. É realmente bem diferente do "The Glorious Burden", que traz fatos históricos corretos, mas bem semelhante a outros discos do Iced Earth. Então, onde você vai depois disso? Você acha que vai fazer novamente algo baseado em fatos reais como fez no “The Glorious Burden”?

Jon Schaffer: Acho bem possível. Depende de onde minha cabeça estiver no momento. O plano original para saga Something Wicked era pra ser logo após o “Something Wicked This Way Comes”. Mas considerei os acontecimentos da época com a gravadora, e não tinha como fazer isso com eles, mas precisávamos completar o contrato com eles, então encerramos com o "Horror Show". E então assinamos com a SPV, e com o contrato com eles, eu disse "Sabe, eu não quero fazer o épico Something Wicked como nosso primeiro trabalho, mas se fizermos isso, e eu gostar da idéia, vocês vão entender". Havia algumas cláusulas contratuais a serem respeitadas. Foi quando discutimos sobre a box e tudo mais. Tudo isso foi de propósito. Eu comecei a juntar instrumentos musicais do mundo em 1999. Eu planejei tudo isso, e sei que algumas pessoas tem problemas com esse elemento da história, as passagens tribais e tal, mas eu não ligo porque é o que faz a história ser como é.

Bem, eu considero uma obra prima. É definitivamente um dos meus favoritos. Tenho ouvido ele bastante e não consigo esperar para vê-los em turnê. Sei que vocês estão indo pegar a estrada para alguns shows nos EUA. Como já falei com você em outras oportunidades, a popularidade do Iced Earth aqui nos Estados Unidos nunca pôde ser comparada com o resto do mundo, definitivamente devido a inconstância do mercado americano. Entretanto, eu recentemente soube que o show em Los Angeles foi transferido para um lugar maior. Você acha que o Iced Earth está finalmente tendo o impacto na América do jeito que você esperava?

Jon Schaffer: Tem tido esse impacto já faz algum tempo. Acho que tivemos muito a ver com o renascimento do metal nos EUA. Em 1997, quando eu tirei a banda da Flórida e fomos para o centro oeste, e começamos a excursionar pelo país em uma van, trabalhando no centro oeste e divulgando até a costa. Não havia nada acontecendo até o momento. Desde a turnê do "Horror Show", Iced Earth teve praticamente as turnês com os shows lotados. Na turnê do "Horror Show", todos os shows, ou uns 95% deles, foram esgotados, e na turnê do "The Glorious Burden", todos os shows principais. Estou feliz com isso. Agora, podemos ir além? Claro. Mas o mercado norte americano é o nosso maior mercado no mundo atualmente.

Sério? Legal.

Jon Schaffer: Sim, absolutamente. Vendemos mais discos nos EUA. Se você pegar a Europa inteira, ainda vendemos mais na Europa. Mas não dá pra fazer isso. Você tem que considerar os países isoladamente. Por muitos anos, a Alemanha era nosso maior país. Considerando por habitante, é a Grécia, mas você sabe, a Grécia tem uma população pequena, é um país pequeno, mas nesse país somos grandes, somos como os Beatles lá, e nunca vou entender isso. (risos). Mas aconteceu assim, e amamos ir para lá. É um lugar legal. Mas em termos de vendas, os EUA são o mercado número 1 do Iced Earth. Então, as coisas tem mudado um pouco.

Bem, Jon, muito obrigado por seu tempo. Foi um prazer e espero ver vocês quando forem para Los Angeles.

Jon Schaffer: Legal cara.

Tudo de bom.

Jon Schaffer: Certo, cara. Se cuida.