2008 - Entrevista com Jon Schaffer
Fonte:
Metal Exile
Tradução por Fábio Hirata
O Iced Earth é uma banda sobrevivente. Com várias trocas na formação e altos e
baixos na cena do Metal, a banda ainda se mantém no topo. Jon Schaffer, um
visionário, um guitarrista fantástico e um verdadeiro compositor, vem mantendo o
Iced Earth vivo por quase duas décadas. Em uma parada recente em Los Angeles,
Jon teve um tempo para falar com o Metal Exiles sobre o "Framing Armageddon" e o
"The Crucible of Man", as gravações mais recentes da banda e a difícil prova que
é ser o Iced Earth.
Metal Exiles: Como tem sido a turnê até agora?
Jon Schaffer: Está indo bem. Tivemos alguns
desastres, como o de ontem à noite em que o trailer quebrou ao meio.
Metal Exiles: E como isso aconteceu?
Jon Schaffer: Porque apareceram com um
trailer um pouco menor nessa segunda parte da turnê, e ele tinha uns buracos que
tivemos que tampar para que não chovesse no nosso equipamento. Estávamos saindo
de São Francisco, sentados no fundo do ônibus e ouvimos um rangido e o motorista
parou, e aí vimos que o trailer tinha quebrado ao meio.
Metal Exiles: Por que você decidiu começar a saga Something Wicked agora e
não antes?
Jon Schaffer: A razão principal foi o
contrato com a Century Media. A intenção da trilogia no final do "Something
Wicked This Way Comes" era apresentar a saga "Something Wicked", que teria
continuação nos dois álbuns seguintes mas eu decidi não continuar com a Century
Media. Eu sabia que seriam duas partes e eu não queria lançar uma com a Century
e depois sair procurando uma outra gravadora para lançar a segunda. Então
coloquei tudo de lado, lançamos o "Horror Show" e com a SPV eu não queria
mostrar o "Something Wicked" logo de cara porque é muito importante pra mim,
então eu quis ter certeza de que tudo correria bem. Então lançamos o "The
Glorious Burden" e a SPV fez um trabalho incrível que me convenceu de que valia
a pena continuar com eles. Quando eu negociei com eles a primeira vez, "Something
Wicked" já fazia parte do contrato, então foi tudo bem planejado por bastante
tempo.
Metal Exiles: A banda sempre conquista novos fãs e eles devem imaginar de
onde vem toda essa história. Conte-nos sobre o conceito por trás de "Something
Wicked This Way Comes".
Jon Schaffer: "Something Wicked This Way
Comes" é apenas uma coleção de várias músicas, com as três últimas contando a
história. A trilogia original fala de três períodos diferentes na linha do
tempo, começando na "Prophecy" e avançando 10.000 anos até o nascimento de Set
Abominae e aí vem a vindoura maldição que é a obra dele nos 2000 anos em que ele
anda pela terra. É basicamente uma olhada nessa história que é super envolvente
e eu levaria uma hora para explicar somente uma fração dela. O conceito básico é
de que a humanidade é hostil com o planeta Terra e havia uma civilização antiga
da Terra que eram os descendentes diretos do Arquiteto do Universo (Deus). A
humanidade veio depois do conhecimento que esses descendentes tinham e que não
souberam fazer uso dele.
Metal Exiles: Parece uma alternativa da Bíblia.
Jon Schaffer: De certa forma pode ser. Os
Setianos estão por trás da criação de todas as religiões que o homem segue e que
nos mantém divididos porque quanto mais divididos estamos, mais facilmente somos
manipulados.
Metal Exiles: Suas gravações contém várias histórias, você parece ser um
ótimo contador de história. De onde vem a idéia de "Something Wicked"?
Jon Schaffer: Provavelmente é uma mistura da
minha paixão por terror, história e ficção científica junto com minhas idéias
sobre religião e, principalmente, sobre as pessoas. Tive essa imagem de como Set
parecia e a história me atingiu como uma tonelada de blocos, foi tudo muito
rápido. Contar uma história como essa poderia ir tão longe como Star Wars ou
Star Trek só que mais obscura, mas não atrai tanto a atenção das pessoas porque
é muito mais maléfica e assustadora. Você tem a habilidade de pegar qualquer
período na história desde a queda do Império Romano até a Revolução Americana e
encaixá-la em qualquer parte do universo de "Something Wicked" e ter uma boa
história para contar.
Metal Exiles: Como "Framing Armageddon" e "The Crucible of Man" entram na
história?
Jon Schaffer: Eles cobrem desde a
Pré-invasão, a sua concepção, o que é a motivação da humanidade, porque eles
estão aqui, o que eles querem. Um período de 12.000 anos é contado nos dois
álbuns. "Framing Armageddon" é um álbum mais sutil porque é o começo da
humanidade em seus primeiros 10.000 anos na Terra e a manipulação do homem pelos
Setianos. "The Crucible of Man" começa com o nascimento de Set e em sua maioria
ele é contado da perspectiva do próprio Set e vem até os dias de hoje. A
história não acaba, mas deixa uma questão no ar com a música "Come What May",
onde a humanidade pode fazer escolhas se puder se livrar dos problemas, e isso
só depende de como nós evoluímos. A humanidade evoluiu de várias formas mas a
natureza do ser humano não mudou nem um pouco, nós ainda somos a mesma merda que
temos sido há séculos. Na vida real isso é triste porque nós já fizemos tantas
coisas grandes mas temos problemas quando precisamos ser honestos. Fico
fascinado com o fato de que os humanos continuam a mentir para si próprios,
ficando no mesmo nível dos idiotas. Eu sei que é difícil ser honesto e que a
verdade dói mas se você se olhar no espelho se sentirá melhor ao longo do tempo.
É sobre isso que "Come What May" fala, a única esperança para a humanidade é a
verdade se quisermos continuar vivendo.
Metal Exiles: Então não há esperança para a humanidade?
Jon Schaffer: Eu duvido que haja. Em "Something
Wicked" está o único fragmento de esperança. Não sou um idealista, mas acho que
já fui alguns anos atrás, mas agora eu vejo com clareza o que a raça humana faz.
Apesar disso, é uma fonte constante de inspiração.
Metal Exiles: Quando você tem essa ideologia por trás das músicas sobre a
raça humana e o homem, em princípio, quanto há de você nessas músicas?
Jon Schaffer: Quando eu digo que há muito de
mim nas músicas, é uma metáfora. Não estou tentando começar uma nova religião,
não acredito que isso esteja acontecendo, quero deixar isso bem claro. Eu sei
que tem até algumas pessoas que acreditam que tudo isso seja real.
Metal Exiles: Algumas pessoas acreditam que Star Wars é real.
Jon Schaffer: Eu sou um fanático por Star
Wars e eu sei que não é real. Todo álbum que escrevi é uma coisa pessoal e eu
sempre encontro formas de encaixar meus sentimentos na ficção científica, no
terror ou no militarismo. Do ponto de vista da composição, tudo vem da minha
alma e eu não ligo para o que está rolando no mês ou as tendências fora do mundo
do Iced Earth. Não ligo para o que a indústria faz, eu faço o Iced Earth.
Metal Exiles: No primeiro single do "Framing Armageddon", "Overture of the
Wicked", Ripper regravou os vocais da trilogia. Por que fizeram isso em vez de
manter Barlow nos vocais?
Jon Schaffer: Matt não estava na banda e nós
estávamos re-introduzindo as músicas na história. Toda vez que gravamos um
single a gravadora quer algum bônus e como eu não escrevo 30 músicas e depois
escolho algumas delas, eu não tenho material extra. Se eu não acredito que a
música vai funcionar, eu nem dedico meu tempo trabalhando nela. Bandas que fazem
isso não têm um verdadeiro compositor, elas só lançam as coisas e vêem se
funciona. Do que o produtor gosta, do que a indústria gosta? Que se foda o que
eles gostam, eu sei do que eu quero. Eu me concentro nas músicas em que eu
acredito que vão funcionar desde o começo. Quando gravamos um single eles querem
bônus, então pensamos em regravar a trilogia. E ela não é só uma versão na voz
do Tim, ela tem barítonos diferentes, é mais teatral e com padrões rítmicos
diferentes. Não tem nada a ver com querer mudar a versão original, adoro as duas
versões e acho que as duas têm algo a oferecer. Adoro a voz do Tim, acho
incrível, e também adoro a original. No fim das contas elas são diferentes nos
barítonos, e isso com certeza muda a melodia vocal.
Metal Exiles: Você mencionou a consistência com as gravadoras para que a
banda possa lançar os álbuns com segurança. E o que diz da consistência entre "Framing
Armageddon" e "The Crucible of Man", com Tim cantando em um e Matt no outro?
Jon Schaffer: Coisas acontecem. Era muito
bom trabalhar com o Tim no estúdio e de um certo ponto de vista no palco ele
também era incrível mas ele não acreditava muito na banda. Iced Earth soava como
um trabalho para ele e a banda não é isso. Os caras que tocavam antes da saída
do Matt acreditavam na banda, o público ficava louco quando eles tocavam e havia
um clima legal no palco. Isso era o que estava fazendo falta e ficou claro para
mim que uma mudança seria necessária. Ela viria de qualquer forma mas aconteceu
de eu e Matt conversarmos sobre fazer um projeto juntos depois que a banda
terminou a parte européia da "Framing Tour". A conversa foi andando e aí
pensamos: por que fazer um projeto quando podemos tocar juntos de novo no Iced
Earth? Isso nem estava planejado e depois de dois ou três dias de conversa a
decisão estava tomada, mas eu nunca havia descartado essa possibilidade. Como
compositor, as coisas não mudam muito para mim. Eu sei que algumas pessoas vão
achar ruim mas para mim a voz é um outro instrumento e quando eu escrevo as
partes vocais, escrevo para a música. Não escrevo para um vocalista, este deve
ser capaz de cantar as minhas músicas. Eu não fico me preocupando em escrever
meu material para que ele se encaixe ao vocalista, ele é que tem que conseguir
fazer isso, se não nem entra no palco.
Metal Exiles: Então a paixão que a banda tinha era o que faltava para o Tim?
Jon Schaffer: De um ponto de vista da
performance, sim. No estúdio nós trabalhávamos muito bem. Mas ele estava mais
interessado em trabalhar com seu projeto solo, era onde a cabeça dele estava e
isso foi ficando cada vez mais óbvio. A banda foi o meio que ele achou para
fazer isso.
Metal Exiles: Então a banda serviu só de ganha-pão?
Jon Schaffer: Com certeza, e o Iced Earth
não é isso. Eu desejo o melhor do mundo para o Tim, sou um grande fã da sua voz
e eu adoro os álbuns que gravamos juntos. De uma certa forma tudo se encaixa
porque o "Framing Armageddon" é precursor do nascimento de Set e o "The Crucible
of Man" é o próprio Set e a sua perspectiva, então o "Framing Armageddon" conta
a profecia e o "The Crucible of Man" a cumpre.
Metal Exiles: Então Tim é o Profeta e o Matt é o Set.
Jon Schaffer: Isso, mas para mim, como
compositor, nada muda. Os álbuns foram gravados exatamente ao mesmo tempo. A
bateria, baixo, guitarras, outros instrumentos, etc. O que fizemos depois da
turnê européia foi escrever as linhas vocais e o Matt escreveu algumas letras.
Metal Exiles: Agora sobre suas guitarras, o que você usa nas gravações?
Jon Schaffer: Todos CDs de estúdio foram
gravados com guitarras Gibson. Eu usei principalmente Explorers, Les Pauls, 135
e SGs em algumas partes. E uso violões Taylor.
Metal Exiles: Fale um pouco sobre os "Ice Buckers".
Jon Schaffer: São captadores que o Jim
Wagner da WCR Pickups desenvolveu. Sou um fã dele e aí começamos a conversar
sobre o som que eu queria alcançar. Com o meu amplificador eu não preciso de um
captador "quente", por isso eu não gosto deles. Não gosto também dos EMGs porque
você perde o tom da guitarra no amplificador e você ouve mais o som do captador,
quando ele deveria captar o som real da guitarra, você quer ouvir o som da
madeira. Isso é que é especial em ter um arsenal de guitarras, cada uma delas
soa diferente. Se você bater em cada uma que tem um EMG, elas vão soar todas
iguais. Para mim, tem tudo a ver com o tom e os Ice Buckers são configurados
para terem o tom grave como os captadores PAF.
Metal Exiles: A situação com o Tim aconteceu, mas o mundo sempre dá voltas.
Você acha que isso afeta o Iced Earth de alguma forma ou é essa a visão de Jon
Schaffer?
Jon Schaffer: O Iced Earth é um veículo para as minhas músicas,
sempre foi. As pessoas acompanham uma banda e elas têm uma ilusão de como uma
banda tem que ser 99% do tempo mas tudo isso é besteira, pois elas não sabem
como é realidade de uma banda. Não comecei essa banda para ser um rockstar
egocêntrico, não ligo para isso. Não tento ser um 'guitar hero', não é o meu
objetivo. A guitarra é a minha ferramenta para escrever as músicas e o Iced
Earth é veículo para elas. Também foi uma luta séria nos primeiros 13 anos com a
Century Media. Foi uma situação em que a maioria das bandas teria jogado a
toalha. São coisas que as pessoas desconhecem e julgam, mas isso não me
preocupa. Qualquer um que tenha trabalhado comigo sabe como sou justo e leal,
mas tem uma coisa que não suporto que é alguém com frescuras. No fim das contas
nem faz tanta diferença. Tem tudo a ver com os empresários, as gravadoras,
promotores e as editoras, essas são as quatro coisas que contam para o sucesso
de uma banda. Não importa qual é o Zé Mané que toca a bateria, a guitarra, o
baixo. Qualquer álbum do Iced Earth vendeu bem independente de quem estava na
banda. As pessoas da indústria sabem que o álbum vai vender bem de qualquer
forma. Essa é umas das coisas que não me preocupam, pois não é sobre mim, é
sobre as minhas músicas.
Metal Exiles: Assim como quando você ouve uma música no rádio e você ouve a
banda, você não pensa na banda, mas na música.
Jon Schaffer: É por isso que estou aqui,
independentemente de quem está tocando no estúdio.
Metal Exiles: Todos os álbuns tem o mesmo conceito de arte. De onde vêm essas
suas idéias?
Jon Schaffer: Quando começo a pensar no
álbum, já começo pelo tema e aí faço o visual se encaixar com ele. Acontece
naturalmente. Quando começo a escrever, deixo as idéias fluírem. É assim que
começa e eu não sei se Set vai aparecer em alguma outra capa porque a história
já foi contada, mas sempre teremos grandes capas porque é um detalhe muito
importante e sempre dou atenção à isso.
Metal Exiles: Agora que "Something Wicked" já acabou, qual será a próxima
idéia?
Jon Schaffer: Eu ainda não sei. A idéia vai
surgir quando for a hora certa. Quando terminarmos a turnê eu vou pensar, mas
não posso fazer isso agora se não depois eu mudo a idéia.
Metal Exiles: Para fechar, mensagem para os fãs.
Jon Schaffer: Como sempre, o Iced Earth tem
sorte. A maiorias das pessoas, independente das mudanças, gosta. São fiéis,
entendem como as coisas funcionam e apreciam a música. Não tem nada a ver com a
moda e as ilusões.