2009 - Entrevista exclusiva com Jon Schaffer
Tradução por Fábio Hirata

Tendências musicais vêm e vão, mas você sabe que pode sempre contar com o Iced Earth e o seu líder de longa data, o compositor e guitarrista Jon Schaffer, para oferecer o épico Metal quando você mais precisa. E em seu álbum mais recente, "The Crucible Of Man: Something Wicked Part 2", o Iced Earth consegue de novo fazer isso, trazendo um desfecho para a história que começou no "Framing Armageddon: Something Wicked Part 1", lançado em 2007, e isso se deve ao fato de que houve uma troca de vocalista entre um álbum e o outro (Tim "Ripper" Owens saiu e Matt Barlow voltou). Schaffer teve um tempinho para conversar sobre o recente álbum e a longa e conturbada carreira.

UGO: Vamos começar falando do "The Crucible of Man: Something Wicked Part 2".

Jon Schaffer: Bom, essa segunda parte da saga Something Wicked foi gravada juntamente com a primeira. Eu escrevi todo o material de fevereiro de 2006 até fevereiro de 2007, quando nós começamos a gravar as linhas de bateria porque eu já tinha terminado todas 35 ou 36 músicas, não lembro direito do número. Então basicamente tudo isso foi feito intencionalmente. "Framing Armageddon" tem uma atmosfera mais sutil e tribal, porque é assim que a história é. "Crucible of Man" já é mais obscuro, porque abre com o nascimento do personagem principal, Set Abominae, que é o anticristo da humanidade, mas o salvador da sua própria raça. Tudo foi feito num período de três meses. A única coisa que foi feita depois foi a finalização das letras, cerca de seis ou oito meses depois de ter começado a turnê do "Framing Armageddon". Mas todo o resto da gravação foi feita ao mesmo tempo.

UGO: Foi um problema finalizar o conceito de Something Wicked com uma troca de vocalista acontecendo entre um álbum e o outro?

Jon Schaffer: A troca de vocalistas não afeta muita coisa, já que sou em quem escreve todo o material, desde as letras até as linhas vocais. Matt contribui com algumas letras, mas sou quem ensina as músicas para os caras, então a troca não faz tanta diferença. E os dois vocalistas são capazes de fazer o que eu peço como compositor e produtor da banda.

UGO: Vai haver um Something Wicked Part 3?

Jon Schaffer: Não, não vai, porque a história nos traz aos dias atuais. Se alguma coisa fosse feita na história de Something Wicked, em termos de envolvimento do Iced Earth, seria algo relacionado com de onde o homem veio e o porquê. De que galáxia veio, e o que tudo isso representa. Mas eu não sinto nenhuma vontade de continuar com essa história.

UGO: Eu li que será lançado um box com os dois álbuns da saga Something Wicked, é verdade?

Jon Schaffer: Bom, falaram sobre isso, mas eu acho que ele não vai ser lançado. Acho que nossa gravadora vai entrar em falência, então acho que ela não vai poder lançar esse box. Isso foi discutido com eles, mas acho mesmo que não vai acontecer.

UGO: Então a banda vai procurar por outra gravadora em breve?

Jon Schaffer: Nós já estamos procurando. Felizmente, para nós, o contrato com ela já acabou. Mas eu me sinto mal pela SPV, por estar passando um período difícil, assim como todas as outras gravadoras.

UGO: Para deixar as coisas bem claras, por que Ripper deixou a banda?

Jon Schaffer: Ele deixou a banda porque eu quis que ele a deixasse. E isso aconteceria mesmo que Matt não voltasse na hora em que voltou, mas aconteceria mesmo assim depois do "Crucible Of Man". De um ponto de vista técnico, Tim é o vocalista mais incrível com quem eu já trabalhei, ele consegue fazer tudo humanamente possível. Mas de um ponto de vista espiritual, o Iced Earth precisava de alguém realmente dedicado. Todo mundo que já esteve na banda - você sabe, Tim foi o quarto vocalista - tinha essa dedicação e era possível ver isso no palco. Mas isso era o que faltava nele. Ele fez um grande trabalho, suas notas eram incríveis ao vivo, estava sempre afinado, e sempre fez o seu trabalho, mas o que atrapalhou foi essa coisa espiritual mesmo. Eu acho que foi porque ele estava mais interessado na carreira solo e isso era óbvio. Então se eu não tivesse conversado com o Matt, a mudança aconteceria mesmo assim depois do "Crucible Of Man". Acontece que o destino interveio e foi assim que aconteceu. Mas eu desejo o melhor para o Tim, ele é um cara incrivelmente talentoso e que merece ir muito mais longe na carreira. Não acho que isso vá acontecer com ele cantando na banda do Yngwie Malmsteen, mas sim se ele olhar para dentro de si mesmo e encontrar aquilo que ele procura, numa banda solo, e aí sim conseguir o que quer.

UGO: Olhando para o passado, você lembra de alguma história engraçada quando Richard Christy estava na banda?

Jon Schaffer: Na verdade, não. Digo, ele era um cara engraçado, mas nada demais. Sempre foi um cara engraçado e sempre vai ser. Então eu acho que ele definitivamente achou o seu dom, estou feliz por isso. Ele estava ficava louco com o Howard Stern Show quase todos os dias, então para ele foi bem legal entrar numa carreira dessas.

UGO: Você conseguia ver esse estranho senso de humor dele quando ele estava na banda?

Jon Schaffer: Com certeza! Era isso que eu queria dizer - ele era um louco o tempo todo! Nada de muito espetacular, mas ele sempre fazia esses filmes estranhos de comédia underground e tal. Ele viaja nessas coisas.

UGO: Você sabe se o Richard já tocou alguma música do Iced Earth no programa do Howard?

Jon Schaffer: Não faço idéia. Não ouço o programa do Howard Stern porque não levanto tão cedo assim. Mesmo que levantasse, não teria como ouvir porque estou sempre ocupado. Mas ouvi dizer que ele já falou do Iced Earth no ar uma vez, aí as pessoas me perguntaram "Alguma coisa mudou?", como eu vou saber? É como se as vendas tivessem aumentado depois que o Richard começou a trabalhar pro Howard, o que eu duvido que aconteceu.

UGO: E como está o Demons & Wizards?

Jon Schaffer: Está parado, nós não conversamos sobre gravar outro álbum, mas eu sei que vai acontecer. É uma coisa que o Hansi e eu sempre fazemos quando podemos. Agora eu tenho outra carta na manga, é meu próximo projeto.

UGO: Você pode falar um pouco sobre esse projeto?

Jon Schaffer: Ainda não, estou trabalhando nele e os detalhes serão anunciados mais pra frente.

UGO: O que você acha da troca de membros que sempre ocorreu no Iced Earth?

Jon Schaffer: Bom, já passamos tempos difíceis, várias bandas não sobreviveriam se passassem pelas mesmas coisas que nós. Nunca tivemos empresários até o final dos anos 90, então eu que cuidava de toda a porcaria com a gravadora e todo o resto por contra própria. Assinar um contrato era como ser um escravo, mas várias pessoas pensavam que já que lançávamos álbuns, tínhamos grana pra caramba, mas não tínhamos nada. Não tem como fazer as pessoas se sentirem bem com uma coisa se elas acham que dali não vai vir nenhum futuro, e a maioria delas não se compromete com nada. Eu fundei essa banda como um veículo para as minhas músicas - é o que é e o que sempre foi, independentemente de quem está nela, e funciona. E quando eu não sigo meus instintos, me fodo. A verdade é que eu lidero a banda há 20 anos e já vendemos milhões de cópias, então alguma coisa está dando certo.

UGO: Foi difícil se manter fiel ao Metal nos anos 90, quando várias pessoas diziam que ele tinha morrido?

Jon Schaffer: Foi difícil pra gente desde o começo. Nosso primeiro álbum (Iced Earth) saiu em novembro de 1990 na Europa e em fevereiro de 1991 nos EUA, mas em poucas cópias. Foi ruim, porque foi no começo do Iced Earth que o Metal começou a "morrer", no começo dos anos 90. Foi quando aquela onda de Seattle fez sucesso e até mesmo no underground Melodic Metal era coisa do passado. Só as bandas de Thrash e Death que conseguiam assinar com os selos independentes. Em 1989, lançamos o "Enter The Realm", que fez um grande sucesso na Europa e fez com que conseguíssemos um contrato. Foi uma demo bem popular - de um ponto de vista de troca de fitas e críticas - e assim conquistamos a Europa. Aí o primeiro álbum saiu, e até que foi bem, considerando a situação da época. Várias pessoas pensaram que éramos uma banda de Death porque estávamos em Tampa, na Flórida nessa época. Todo mundo pensava: "Deve ser uma banda de Death", mas quando escutavam e viam que não era, era mais chocante. O Metal pra mim é meu estilo de vida. Não ligo para melhor música da semana e nem para as tendências, me dedico à outra coisa. Tem gente que ama e odeia tanto a mim quanto ao Iced Earth, e eu sou bem sincero, sou o filho da mãe que se dedica à banda, mais do que qualquer um que já conheci. É assim que vivo, e é assim que vou viver até que chegue o dia em que vou decidir se já terminei com tudo ou não. Mas isso quem vai decidir sou eu, ninguém mais.