2010 - Entrevista com Jon Schaffer
Por Ricardo Campos e Johnny Z. (Roadie Crew)o

ICED EARTH - FINALMENTE NO BRASIL!

Demorou muito, mais de duas décadas na verdade, mas finalmente no início de fevereiro os norte-americanos do Iced Earth desembarcarão no Brasil para alguns shows – confirmados em São Paulo e Curitiba até o fechamento desta edição. E foram muitos os feitos do guitarrista e líder Jon Schaffer & Cia. que os fãs brasileiros puderam acompanhar apenas de longe: álbuns clássicos como Burnt Offerings (1995), The Dark Saga (1996) e Something Wicked This Way Comes (1998), a saída do vocalista Matthew Barlow e seu retorno após quatro anos, a experiência que acabou mal com o substituto Tim "Ripper" Owens, ex-Judas Priest... Pois é, foram muitas coisas. E tantas memórias acompanhadas de longe farão desta primeira experiência no Brasil algo especial para os fãs. Nesta entrevista Jon fala sobre toda a expectativa que a banda vive para os shows, comenta sobre o futuro da banda, o relacionamento com a antiga gravadora, o projeto Demons & Wizards e muito mais.

1- Em 2002 foi cogitada uma turnê sul-americana do Iced Earth. Por que ela não aconteceu?

JON SCHAFFER:
O que acho que aconteceu foi que tanto o meu empresário quanto a agência que cuida dos shows da banda sentiram que o promotor que estava marcando aquela turnê não seria a melhor opção para nós. Mas não tenho certeza disso, é apenas o que ouvi dizer, pois não lido diretamente com essa parte.

2- Passadas mais de duas décadas de Iced Earth, o próximo mês de fevereiro marcará o encontro da banda com os fãs brasileiros. Quais são as suas expectativas?

JON SCHAFFER: Estou muito ansioso para tocar no Brasil, mas como será a primeira vez da banda não sei bem o que esperar. Sei que temos muitos fãs aí, mas não faço ideia se são numerosos e dedicados. Será uma aventura para nós e espero que das boas!

3- Falando sobre a atual situação da banda, como ficou a parceria com a SPV Records, já que a gravadora atravessa graves problemas por causa dos reflexos do mercado atual, com downloads ilegais e vendas declinando?

JON SCHAFFER:
O nosso contrato com a SPV terminou. A empresa era composta por ótimas pessoas, mas acabou tendo alguns problemas de administração. A indústria musical está atravessando por muitas grandes mudanças neste momento e várias gravadoras estão encrencadas. Acho que com o tempo mais gravadoras irão à falência, pelo menos é o curso que as coisas estão tomando. Estamos num período difícil para venda de álbuns, até mesmo para as grandes bandas, pois elas não atingem os números a que estavam acostumadas. Muitos países estão até tendo que diminuir a quantidade de álbuns para discos de ouro e platina, pois simplesmente não vendem o suficiente para as marcas anteriores. Isso aconteceu na Alemanha recentemente, se não me engano mudaram o disco de platina de 500 mil para 250 mil, enquanto o ouro, que antes 250 mil, virou 100 mil. E isso está acontecendo por causa dos downloads ilegais, das cópias digitais e de tudo mais que tem acontecido. É um momento complicado para gravadoras e bandas.

4- Há algum tempo ouvi falar sobre o lançamento de um box set especial que traria todos os lançamentos da saga "Something Wicked", álbuns e singles, e teria como novidade Framing Armageddon regravado na voz de Matthew Barlow. Isso ainda está de pé?

JON SCHAFFER: Isso chegou a ser cogitado, mas não sei se haveria demanda suficiente para o lançamento e, além disso, a SPV teve os problemas financeiros. Então, a regravação de Framing Armageddon acabou se tornando algo meio sem justificativa. Não vejo problemas nesse disco, acho que ele é bom da forma como é. Então, quando deu todo o problema com a SPV, regravar algo que já é bom ficou sem sentido. Mas, sim, conversamos a respeito. Ouvi que eles ainda vão lançar um box set com toda a saga "Something Wicked", com os álbuns e os singles, mas serão as mesmas gravações, sem diferença.

5- Você diria que o line up do Iced Earth está estável? Digo, o baixista Freddie Vidales, mais recente adição, gravará o novo álbum?

JON SCHAFFER: Espero que sim, mas, você sabe, qualquer coisa pode acontecer! Creio que neste momento o line up esteja estável dentro de um padrão de normalidade.

6- Como foi o sentimento naquele primeiro show após o retorno de Matthew, no "Chicago Powerfest", com os fãs gritando para ele "bem-vindo de volta"?

JON SCHAFFER: Foi muito legal, foi um grande show. Nós nos emocionamos e nos divertimos muito.

7- A demissão de Tim "Ripper" Owens em 2007 foi de certa forma traumática. Você mudaria algo hoje, se tivesse a chance?

JON SCHAFFER: Na verdade, não. Eu desejaria que a forma como isso foi anunciado fosse diferente... Mas, não. Acho que Tim poderia ter lidado com isso de outra forma se tivesse me ligado, como pedi. Provavelmente as coisas teriam sido diferentes se ele fizesse aquilo. Mas as coisas são como são e eu não mudaria. Certo, foi chato por ter acontecido numa época do ano perto do Natal, mas o que eu posso fazer? O Natal é apenas mais um dia do ano e seria errado fingir que tudo estava normal só por causa da época e deixar para dar a notícia depois. Isso não faz sentido para mim, não é honesto.

8- Tendo em vista que são muitos os ex-integrantes do Iced Earth, com quais deles você ainda mantém contato e uma boa relação, e quais você gostaria de simplesmente apagar da sua vida?

JON SCHAFFER: Não tem alguém que eu queira esquecer, apenas não mantenho um relacionamento com alguns dos caras. As separações nunca foram traumáticas. Provavelmente, a saída do Tim foi uma das mais graves, mas por falta de informação a respeito. E eu não farei parte desse jogo. Em várias entrevistas as pessoas me perguntam sobre detalhes da separação... O ponto não são os detalhes, francamente isso não é da conta da imprensa nem de outras pessoas, é algo entre o Tim e eu. Conversamos sobre isso, está tudo bem entre nós. Mas sempre terá algo amargo a respeito, pois o mesmo que aconteceu entre nós rolou com ele e o Judas Priest, apenas não funcionou. No final das contas, as coisas são assim e desejo o melhor para ele. Eu amo a voz dele e sinto falta da sua companhia. Não o vejo com muita freqüência, nos encontramos em um festival europeu no meio de 2009... Conversamos e ele agiu como se tudo estivesse normal – pelo menos, na minha frente. Sobre os outros caras, continuo em contato com alguns, tanto que um dos meus melhores amigos é Mike McGill, bateria do primeiro álbum da banda, nós nos falamos várias vezes por ano! Com outros perdi contato simplesmente porque as pessoas passam e seguem com as suas vidas, vivendo em outras partes do país. Não existem sentimentos ruins, pelo menos de minha parte.

9- O próximo lançamento da banda é o DVD Festivals Of The Wicked. Como anda o processo de produção e quais são previsões de lançamento?

JON SCHAFFER: Ainda não sei quando ele será lançado, pois no momento negociamos contratos com diferentes gravadoras. Quando decidimos lançá-lo, pensamos que neste estágio já teríamos passado da fase de negociação e que conseguiríamos colocar o DVD no mercado no final de 2009. Acho que ele vai sair ainda neste primeiro semestre de 2010, mas ainda não sei por qual gravadora. O conteúdo dele é composto por shows nossos no "Rock Hard Festival" (N.R.: edição de 2008), já com o Matt de volta, e o "Wacken Open Air" (N.R.: edição de 2007) quando o Tim ainda era o vocalista, além de 'behind the scenes' e coisas assim.

10- Achei que seriam três shows num DVD triplo!

JON SCHAFFER: É verdade, você está certo! Esqueci, também tem o show no "Metalcamp" em 2008.

11- Mudando de assunto, os fãs sempre perguntam sobre um novo trabalho do Demons & Wizards. Você pretende colocá-lo na ativa novamente para um álbum, shows ou, quem sabe, um DVD?

JON SCHAFFER: Sim, quero fazer tudo isso que você mencionou. Só ainda não sei quando. Hansi Kürsch e eu planejamos nos encontrar no final de 2009, mas as nossas agendas acabaram ficando enroladas demais e inviabilizou tudo. Mas o Demons & Wizards é isso mesmo, fazemos as coisas quando temos tempo. Encontrei Hansi na turnê que fizemos na Alemanha ao lado do Saxon, ele foi a um dos shows e ficamos conversando bastante sobre o novo álbum, então ele vai acontecer com certeza, falta só achar tempo certo para isso. Amamos trabalhar juntos, Hansi é um dos meus melhores amigos em todo o mundo. Temos uma boa química em compor juntos e sabemos que os fãs adoram. Gostaríamos de poder fazer álbuns do projeto com mais frequência, mas temos tantas coisas para cuidar, ele com o Blind Guardian e eu com o Iced Earth, além de nossas vidas, famílias etc. Fazemos quando podemos, mas dessa vez queremos nos certificar que criaremos o melhor álbum possível, pois queremos passar mais tempo compondo juntos, fisicamente no mesmo local. Será bem melhor do que eu fazer a música aqui, passar para ele pela internet e ele me devolver com melodias vocais e letras. Isso será mais legal, porém exigirá um tempo maior.

12- Ainda no campo dos projetos, ouvi dizer que você planeja algo novo ao lado de Biff Byford e Doug Scarrat, ambos do Saxon. Conte-nos alguns detalhes.

JON SCHAFFER: É algo que Doug, Biff e eu faremos algum dia quando tivermos tempo. Trabalho em algo grandioso há alguns meses e isso será anunciado em breve, então o projeto com Doug e Biff teve que ser um pouco adiado... Mas Doug e eu temos uma grande química juntos, fizemos várias jams nos ônibus durante a turnê e acho que poderemos compor coisas muito legais em parceria. Conversamos sobre a possibilidade de fazer um álbum conceitual sobre a I Guerra Mundial, pois é um conceito muito forte sobre um período muito trágico da História. Acho que podemos criar músicas bem poderosas para narrar aquela época – essa é a ideia. Mas quando acontecerá, só o tempo vai dizer.

13- Vamos finalizar retornando ao assunto dos shows no Brasil. Sendo esta a primeira vez da banda por aqui, você pretende apresentar um set list especial?

JON SCHAFFER: Nessa turnê levaremos um set de clássicos, com algumas músicas novas misturadas. Tendo em mente que nunca estivemos aí, sei que muitas pessoas vão querer ouvir material de todas as fases do Iced Earth, pelo menos é o que acontece quando vamos a um novo território. Seria errado focar no material novo, pois isso é algo que devemos fazer em locais em que já tocamos várias vezes, em que fizemos turnês constantes. Estou ansioso por encontrar nossos fãs brasileiros, pois sempre ouvimos dizer que são muitos. Espero que a turnê seja divertida tanto para eles quanto para nós. E se tudo correr bem, tenho certeza de que nos encontraremos com uma frequência bem maior.